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Realismo fantástico: o que está por trás destas histórias?

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Apresentar as origens da literatura fantástica
  • Perceber a constituição do realismo fantástico a partir de elementos incomuns
  • Escrever uma narrativa fantástica
Conteúdo(s) 
  • Realismo fantástico (também chamado de realismo mágico ou realismo maravilhoso)
  • Literatura
Ano(s) 
Tempo estimado 
2 aulas
Material necessário 
  • Cópias da reportagem "Deixe-se enganar" (Veja, 2294, 7 de novembro de 2012)
  • Trechos selecionados de "A divina comédia - Inferno" (Dante Aleghieri); "Odisseia" (Homero); "Cem anos de solidão" (Gabriel García Marquez); "O último voo do flamingo" (Mia Couto) e da obra de Julio Cortázar e Murilo Mendes.

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 
Introdução

A reportagem "Deixe-se enganar", publicada em Veja, fala sobre o fascínio que a obra do escritor japonês Haruki Murakami vem exercendo sobre a crítica especializada e em leitores de várias origens. Sua trilogia, "1Q84", tornou-se um best-seller no mundo todo ao utilizar elementos e citações da realidade cotidiana atrelados a acontecimentos e situações anormais. Tudo isso para gerar um conflito, na melhor tradição da literatura fantástica.

Utilize a reportagem como ponto de partida para uma aula que explique o que é o realismo fantástico e oriente seus alunos a escreverem uma narração nesse modelo. 

Conte aos estudantes que nas próximas aulas eles vão estudar um gênero literário muito interessante: o realismo fantástico (também conhecido como realismo mágico ou realismo maravilhoso).

Comece questionando a turma sobre o que significa o adjetivo "fantástico". Anote as respostas no quadro e aproveite o gancho para explicar que a narrativa fantástica é cultivada desde as origens da literatura. Ela pode ser definida como a descrição de um acontecimento insólito que produz um estranhamento ou rompimento com a realidade habitual e leva personagens e leitores a uma outra realidade, em parte inexplicável, onde o conflito é resolvido por meios não convencionais.
 
Essa literatura não deve ser vista como mera alegoria, mas como uma expressão de uma realidade incomum. Isto é, nem sempre é apenas uma criação ficcional, mas fundamentalmente uma tentativa de propor interpretações não convencionais aos problemas reais. Indique aos alunos que essas características estão presentes tanto em obras recentes quanto antigas. É possível encontrar nos clássicos da literatura ocidental a origem de elementos fantásticos. Na Odisseia de Homero há muitos acontecimentos incomuns como o encontro do herói Odisseu com as Sereias (entes mitológicos antropófagos, que detinham o poder de encantamento e sedução) e o ardil utilizado pelo herói para vencer o ciclope Polifemo.

Outro autor clássico cuja obra influenciou  a literatura ocidental foi o poeta Dante Alighieri (1265-1321). O épico "A divina comédia" é marcado pelo estranho encontro do autor com a alma do poeta latino Virgílio (70 a.C. - 19 a.C.), que serve de guia às regiões infernais e ao Purgatório, locais em que o poeta florentino testemunha toda série de martírios destinados às almas condenadas. Na viagem, os poetas encontram personagens como o barqueiro Caronte, responsável por conduzir as almas pelo rio Aqueronte; o cão Cérbero, monstro de três cabeças responsável por vigiar as almas dos glutões; além de outros seres mitológicos, como as Hidras, os Centauros, as Hárpias e o gigante Gerião - personagens da mitologia clássica utilizados como parte da alegoria dos horrores descritos por Dante em sua viagem fantástica ao mundo dos mortos.

A literatura dos viajantes, feita entre os séculos 15 e 17, também foi marcada pela descrição de espaços, seres e situações que, para a realidade europeia recém-saída da Idade Média, eram manifestações próximas aos mitos e lendas do passado. A literatura contemporânea deu sequência à tradição do fantástico. No século 20, vários autores fizeram do chamado "realismo fantástico" o mote de sua obra: KafkaEdgar Allan PoeJosé SaramagoMia CoutoMurilo RubiãoGabriel García MárquezJulio Cortázar são alguns deles.

2ª etapa 

Retome a definião de realismo fantástico para que os alunos consigam responder se gostam deste tipo de história e deem exemplos. Conte que a transgressão realizada pela literatura fantástica se traduz pelo aparecimento do absurdo e do choque entre a realidade como conhecemos e uma outra, criada pelo escritor, que podemos chamar de "supra-realidade". Pergunte aos estudantes se conhecem ou se interessam por obras consideradas fantásticas. Em caso positivo, peça que citem obras de sua preferência. Não tenha preconceitos: é possível que sejam obras populares, filmes de ficção ou jogos. O importante é estabelecer um elo entre as características literárias e aquelas que forem identificadas pelos adolescentes. Além disso, é interessante observar que o fantástico está presente em muitos tipos de textos: nas lendas e contos de fada, nos mitos antigos, na literatura, nas histórias em quadrinhos e até nos heróis dos filmes de ficção científica e terror.

Distribua  cópias do texto "Deixe-se enganar", publicado em Veja. Oriente a leitura e observe que o próprio título da reportagem já oferece uma possibilidade interpretativa da literatura fantástica: o leitor deve se deixar "enganar" pelo que parece irreal ou espantoso para fazer uma leitura profunda da obra.

3ª etapa 

A seguir, apresente alguns autores para a turma e leia trechos previamente selecionados por você de algumas dessas obras. Peça aos alunos que participem com comentários! Abaixo algumas sugestões de escritores que podem ser trabalhados com a turma:

 

Escritores "fantásticos"

O escritor moçambicano Mia Couto é um deles. Sua obra é marcada pela interpretação dos acontecimentos marcantes de seu país a partir de um viés fantástico. Livros como os romances "A varanda do frangipani" e "O último voo do flamingo" são bons exemplos. No primeiro, o fantasma de um velho carpinteiro luta contra a tentativa do governo revolucionário em torná-lo herói nacional. No segundo, o incomum acontece a partir da presença de soldados das Forças de Paz da ONU durante o período do pós-guerra: sem qualquer explicação aparente, os soldados de capacete azul simplesmente começam a explodir. Em ambos os romances, a presença de lendas e mitos africanos é utilizada como contraponto à realidade habitual, e os acontecimentos inusitados recebem explicações plausíveis a partir da compreensão desses mitos.

A literatura latino-americana do século 20 foi profícua na produção de narrativas vinculadas ao realismo-mágico ou realismo fantástico. A obra máxima de Gabriel García Marquez, "Cem anos de solidão", é sem dúvida das mais marcantes narrativas do continente. Por meio de um enredo considerado fantástico, o escritor colombiano fala sobre a origem e o declínio de uma família tradicional e faz uma crítica acentuada ao engessamento da sociedade no continente.

O argentino Julio Cortázar escreveu livros em que a ambigüidade e a fragmentação surgem para criar enredos alegóricos, em que a realidade cotidiana é abalada pelo surgimento de um acontecimento quase inexplicável. Seus contos e novelas são marcados pela presença de uma temporalidade não linear nem progressiva, e também pela ideia do "duplo", do contrário e do outro como elemento de tensão. O conto "As babas do diabo" deu origem ao filme "Blow-up", do cineasta Michelangelo Antonioni.

Outro exemplo que você pode mostrar à turma é o brasileiro Murilo Rubião, um dos mais importantes autores do realismo mágico em nossa literatura. Contos como "O ex-mágico da Taberna de Minhota", "Teleco, o coelhinho" ou "O pirotécnico Zacarias" apresentam elementos inverossímeis que acabam por trazer reflexões profundas sobre a realidade e os sentimentos das pessoas, sempre dosados com ironia sutil.

 

Indique aos alunos a leitura de ao menos um conto completo de um dos autores citados - escolha, por exemplo, um dos contos curtos de Julio Cortázar ou Murilo Rubião. Peça que pesquisem e tragam anotados outros exemplos de autores e as características principais da obra.

4ª etapa 

Peça aos estudantes que comentem os contos lidos e as pesquisas. Pergunte o que mais chamou a atenção deles: o que diferencia estas histórias das mais realistas? Por que  acreditam que a literatura fantástica possa atrair tantos leitores?

A seguir, proponha que escrevam uma história com as características da literatura fantástica. O trabalho pode ser individual ou em equipes. Os alunos podem escolher se preferem uma lenda, uma história de terror ou até um texto bem humorado. Lembre à turma que um acontecimento absurdo é o que traz a surpresa para uma narrativa fantástica. Muitas vezes uma história que começa de forma aparentemente linear, "normal", acaba oferecendo um elemento-surpresa que a transforma numa narrativa fantástica. Quando os estudantes terminarem, peça que compartilhem suas produções.

Avaliação 

Tomando como referência os textos produzidos e os debates feitos em sala, observe se os alunos entenderam o que é o realismo fantástico e se conseguem distinguir uma história com estas características.

Flexibilização 

Se houver algum aluno com deficiência visual na sala, a sugestão é utilizar esculturas e outros objetos com formas exageradas como bonecos com cabeças e pernas desproporcionais, réplicas de insetos ou figuras que misturem características humanas e animais, entre outros. Em contato com essas formas, os alunos poderão iniciar o reconhecimento do fantástico de forma materializada, auxiliando não só aos deficientes visuais, mas a todos os alunos.

Deficiências 
Visual
Créditos:
André Rosa
Formação:
Professor de Literatura e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)
Autor Nova Escola

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