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Por que tantas crianças e jovens brasileiros estão fora da sala de aula?

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

- Analisar os dados apresentados no relatório divulgado pela ONG Todos Pela Educação com base nos dados da última edição da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad)
- Compreender duas formas de análise de fenômenos sociais utilizadas nas Ciências Humanas: as explicações baseadas na ideia de estruturas sociais e a análise interpretativa das ações individuais

Conteúdo(s) 

- Educação no Brasil

 

Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 

- Cópias do texto do site de Veja"Brasil tem 3,6 milhões de crianças e jovens fora da escola",  publicado em 06 de março de 2013. Como alternativa, você poderá utilizar um projetor multimídia para apresentar o texto para a turma.

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

De acordo com o relatório da ONG Todos Pela Educação com os dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (PNAD), cerca de 8% das crianças e jovens não estão frequentando a escola no Brasil. Trata-se de um índice preocupante e demonstra que uma parcela significante da população está sendo privada de um direito garantido pela constituição e do desenvolvimento das competências necessárias para a vida adulta.

Existem várias formas de analisar esse fenômeno. Por exemplo, considerando o papel do governo e a influência familiar. Neste plano de aula, os dados apresentados na reportagem de Veja serão empregados para estimular a discussão sobre o assunto e para apresentar duas formas de análise utilizadas nas Ciências Sociais: as explicações baseadas nas estruturas sociais e a análise interpretativa das ações individuais. A partir da discussão do caso específico, os alunos serão estimulados a questionar as duas vertentes. Além disso, a turma pode ser incentivada a opinar sobre qual tipo de explicação parece ser mais adequada para entender o problema da educação básica no Brasil.

Inicie a aula com um bate-papo com a turma. Procure saber o que eles pensam sobre a questão do acesso à Educação no Brasil.  Quais as vantagens de ir à escola e obter conhecimentos e instrução? O que acontece com as pessoas que não vão à escola?

Faça com que a turma reflita e dê palpites sobre a quantidade de pessoas analfabetas ou que não frequentam a escola. Na opinião dos alunos, quais as regiões do país ou as classes sociais onde a frequência escolar é maior ou, de forma complementar, onde a evasão escolar é menor? Como eles percebem a questão da educação básica? Ela é adequada ou pode melhorar?

Lembre-se que a educação básica no Brasil compreende três etapas: a Educação Infantil (para alunos de zero a cinco anos), o Ensino Fundamental (de seis a 14 anos) e o Ensino Médio (para jovens de 15 a 17 anos).

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Nº 9.394,de 20 de dezembro de 1996), o Ensino Fundamental é obrigatório e deve ser oferecido de forma gratuita e universal. Ainda de acordo com a legislação, a Educação Infantil e o Ensino Fundamental são responsabilidade dos municípios, enquanto o Ensino Médio é oferecido e gerenciado pelos governos estaduais.

Em seguida, realize uma leitura dirigida do texto de Veja On Line, "Brasil tem 3,6 milhões de crianças e jovens fora da escola". Esclareça as dúvidas da turma e estimule a discussão. Quais as informações contidas no texto que mais chamaram a atenção dos alunos? Quais os índices de inclusão no sistema de ensino, apresentados na reportagem, para o Ensino Fundamental e Médio? Segundo a reportagem, qual a etapa da Educação primária mais defasada? Como eles percebem essa questão em sua cidade e estado?

Em seguida, peça que os alunos utilizem suas próprias palavras para descrever o problema, suas origens e implicações. De forma mais precisa, estimule a turma a pensar sobre as causas desse problema: quais os motivos para a insuficiente adesão à Educação primária no Brasil?

Utilize o quadro para anotar as respostas da turma. Você poderá até mesmo solicitar que cada um dos alunos escreva uma ou mais causas no quadro. Ao final da discussão, vocês terão anotado uma série de possíveis causas para o problema educacional mencionado na reportagem de Veja. Em seguida, incentive a turma a analisar as respostas apresentadas, tentando relacionar causas semelhantes ou identificando o tipo de resposta mais comum.

Para encerrar esta etapa, utilize algumas das respostas dos alunos para demonstrar dois tipos de explicações possíveis para a questão da educação: em um lado, destaque as respostas que apontam a causa do problema para as condições econômicas de uma região ou estado, para a competência ou capacidade do governo, ou para as falhas do sistema escolar. No outro, liste as respostas que indiquem a falta de interesse dos alunos, a influência da família, ou a necessidade de procurar emprego e entrar no mercado de trabalho. Ao final, você deverá apresentar um esquema semelhante a esse:

pobreza                                                                                 pouco incentivo da família
baixa qualidade do ensino                                            necessidade de começar a trabalhar
má gestão dos recursos públicos                                pouco interesse no estudo
escolas mal conservadas                                                influência negativa dos amigos

Assim, na primeira coluna, deverão ser listadas as causas e explicações macrossociais ou estruturais. Elas correspondem aos fatores do contexto social mais amplo, das  instituições governamentais que forçariam as pessoas a tomarem certas decisões ou que proporcionariam condições inadequadas para o correto desenvolvimento das atividades de ensino. Na segunda coluna você deverá relacionar as explicações microssociais, associadas com os motivos individuais das pessoas que interrompem os estudos ou por questões pessoais, ou por decisões familiares entre outros motivos.

Peça que a turma analise e discuta o quadro apresentado. Se necessário, incentive-os a fazer anotações. É importante que a distinção entre os dois tipos de explicação fique bem clara, pois ela representa duas grandes vertentes de análise nas Ciências Humanas, que serão exploradas na próxima etapa da sequência didática.

2ª etapa 

Inicie a segunda etapa com uma revisão sobre o texto de Veja e sobre as discussões realizadas anteriormente. Se necessário, utilize o quadro ou o projetor multimídia para reproduzir o esquema, com os diferentes tipos de explicação para o problema da educação, produzido na etapa anterior. Incentive a turma a fazer comentários, observações e até mesmo incluir novos exemplos. Em seguida, realize uma exposição utilizando o seguinte texto de apoio: 

Fatores macrossociais e microssociais
No cotidiano, as pessoas normalmente abordam os problemas sociais por meio de sua intuição, valores, cultura e experiências prévias. As Ciências Humanas procuram analisar esses mesmos problemas de forma diferente. Para isso, utilizam diversas técnicas metodológicas, teorias e modos de explicação científicos.

Em outras palavras, as opiniões de sociólogos, antropólogos e outros cientistas sociais costumam ser baseadas em alguma forma sistematizada de análise e interpretação de fenômenos estudados. Antes de tentar explicar um problema, eles estudam uma teoria social e analisam dados estatísticos, pesquisas de opinião e entrevistas de forma detalhada e cuidadosa. É essa postura teórica e metodológica que distingue as Ciências Humanas, em geral, da opinião pública e individual.

Isto não significa, no entanto, que todos os cientistas sociais abordem as questões do cotidiano da mesma forma. Pelo contrário, em muitos casos os cientistas sociais discordam seriamente em relação a um determinado problema social. De fato, existem diversas formas científicas de analisar um mesmo problema social e essa variedade acompanha as disciplinas das Ciências Humanas desde sua criação, no final do século 19.

O exercício de leitura, análise e debate realizado anteriormente, com as causas da insuficiente cobertura da educação básica, serve como uma forma de demonstrar essas diferenças. Por um lado, a questão pode ser analisada como um problema estrutural. Nessa perspectiva, a estrutura social - isto é, as condições sociais e econômicas, as instituições, leis e normas - determinam e condicionam as escolhas individuais e as possibilidades de ação das pessoas. De acordo com essa perspectiva, a sociedade pode ser percebida como o conjunto de diferentes partes integradas, que tendem a funcionar em harmonia. Quando uma dessas partes não funciona corretamente, essa falha influenciaria as outras partes do sistema.

Uma analogia comum, proposta por Herbert Spencer, (teórico inglês que buscou no evolucionismo os mecanismos e objetivos da sociedade, e defendeu o ensino da ciência para formar adultos competitivos. Saiba mais aqui) descreve a sociedade como um corpo, com diversos órgãos que funcionam em conjunto. Quando um dos órgãos está "doente", os efeitos negativos são sentidos no resto do corpo. O mesmo aconteceria na sociedade: quando uma parte da sociedade não se comporta como esperado, efeitos negativos podem ser sentidos em outras partes.

Assim, quando o problema da adesão escolar é explicado, por exemplo, como o resultado de falhas na administração do sistema escolar, estamos assumindo que alguma parte do "corpo social" não está se comportando adequadamente. Ou ainda: quando relacionamos a pobreza com os problemas da educação, assumimos que existem certas condições estruturais ideais para que o sistema educacional funcione adequadamente. Em ambos os casos, a análise é sempre voltada para a sociedade, como um todo, e para fatores macrossociais como a economia, as condições tecnológicas ou as formas de produção, procurando identificar seus efeitos sobre os indivíduos.

Por outro lado, as explicações sobre os problemas da educação podem ser analisadas a partir de perspectivas microssociais, onde a capacidade de ação ou, em outras palavras, a agência individual é central. Ao contrário da perspectiva estrutural onde o foco é a sociedade e suas instituições, a preocupação passa a ser a compreensão dos motivos, racionalidades e discursos das pessoas envolvidas em certas atividades e contextos sociais. Nesse sentido, as pessoas estão constantemente avaliando seu ambiente, analisando as possibilidades que são apresentadas para elas, e fazendo escolhas que determinam seu destino.

Por exemplo, a questão dos jovens que não frequentam o ensino médio poderia ser analisada da seguinte forma: ao atingirem certa idade, alguns jovens começam a trabalhar para ajudar com as despesas familiares. Ao receber um salário e começar a se integrar ao mercado de consumo, esses jovens sentem-se capazes e relativamente bem-sucedidos sem precisar do ensino formal. Assim, avaliam que a escola é desnecessária e obsoleta, e não retornam mais para os bancos escolares. Nesse caso, as estruturas sociais tem pouca importância e o problema da defasagem escolar é descrito, na verdade, em termos das escolhas e capacidade de ação dos indivíduos envolvidos. Ainda que pressionados pela sociedade, as pessoas são vistas como dotadas de certo grau de autonomia e capacidade de reflexividade.

Ambas as formas de análise descritas acima são válidas e úteis. De fato, o caso apresentado na reportagem de Veja e discutido anteriormente demonstra que é possível analisar o mesmo problema social a partir de perspectivas distintas. Muito além de fornecer uma forma "certa" ou "ideal" para explicar um problema social, o debate entre estrutura e agência é fundamental para compreender a racionalidade das Ciências Humanas e suas diferentes formas de explicação possíveis. Na verdade, atualmente, muitos cientistas sociais percebem a importância das duas correntes de pensamento e costumam empregá-las em conjunto, procurando descrever como as estruturas sociais podem condicionar as escolhas individuas e como, de forma complementar, as escolhas individuais também podem alterar as instituições sociais. (Maiko Rafael Spiess)

3ª etapa 

Organize a turma em grupos de até quatro pessoas. Eles deverão conversar e discutir sobre os temas abordados na sequência didática e, em seguida, elaborar um trabalho (um texto, cartaz, apresentação expositiva ou outra forma que você julgar conveniente) relacionando a universalização do ensino com fatores estruturais/macrossociais e com ações individuais/microssociais.

Eles deverão propor e descrever, a partir das duas vertentes analíticas apresentadas, possíveis elementos que contribuem para que os jovens consigam frequentar o Ensino Médio. O objetivo é incentivar a turma a pensar em formas de melhorar o sistema da educação básica no Brasil.

Avaliação 

Os alunos serão avaliados por meio do trabalho proposto. Considere a participação nas aulas e verifique o que foi compreendido dos textos apresentados. 

 

Quer saber mais?

Livros
GIDDENS, Anthony. A Constituição da Sociedade. Martins Fontes, 2003.

Nesse livro, o sociólogo inglês discute o dualismo entre estrutura e agência, e sua relação com a ação social. Também propõe a noção de reflexividade, compreendido como a habilidade dos indivíduos de analisar e alterar sua posição na estrutura social. (Maiko Rafael Spiess)

 CHARLOT, Bernard. Os Jovens e o Saber - Perspectivas Mundiais, 152 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 39 reais

 

Créditos:
Maiko Rafael Spiess
Formação:
Sociólogo e pesquisador visitante do Departamento de História da Ciência da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos
Autor Nova Escola

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