Aqui você pode pesquisar e adaptar planos já existentes

 


Para a ficção, realidade é só cenário

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Analisar as relações entre autor, obra e público, verdade e verossimilhança e liberdade de criação

Conteúdo(s) 

Relações entre autor, obra e público

Material necessário 

Reportagem da Veja:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Um William Shakespeare adolescente fazendo loucuras em nome do amor, murmurando para uma jovem seus versos imortais, muito antes de tê-los escrito? Isso nunca existiu. Mas em termos artísticos existe - desde a realização do filme Shakespeare Apaixonado, abordado na reportagem de VEJA. Utilize o plano de aula para mostrar a seus alunos que essa fusão entre realidade e fantasia caracteriza várias esferas da atividade artística.

Mundos paralelos
Na literatura, no cinema, na telenovela e nas artes plásticas, os seres e os fatos só passam a existir depois que a obra é elaborada. O autor da obra de arte inventa um mundo que não se confunde com documentos ou com retratos da realidade. Esse universo de ficção mantém relações explícitas ou implícitas com o mundo real, mas não encontra uma correspondência exata nesse mundo. E o autor não é obrigado a se ater a essa realidade. Ele cria a partir dela - e tem consciência disso. Veja o que escreve Guimarães Rosa no conto A Hora e Vez de Augusto Matraga:
"E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não um caso acontecido, não senhor."
 

Os alunos fazem a leitura silenciosa da reportagem e identificam os trechos mais importantes, entre os quais devem estar os destacados abaixo. O professor divide a classe em grupos, encarregando-os de pesquisar e analisar os destaques, conforme anotações a seguir. No final, cada grupo faz sua exposição.

O professor poderá pedir aos grupos que pesquisem fatos biográficos, obras e personagens de autores brasileiros bem conhecidos, como Álvares de Azevedo e Machado de Assis.

Na biografia de Álvares de Azevedo, baseada mais em suposições e boatos que em fatos documentados, merecem destaque a tão comentada virgindade do poeta (que morreu antes dos 21 anos), em oposição a poemas dotados de acentuado erotismo (por exemplo: Soneto); e também seu comportamento, tido como extrovertido, em oposição ao pessimismo de muitos poemas (Lembrança de Morrer; Se Eu Morresse Amanhã e outros).

 

 

Sobre Machado, cuja biografia é bem documentada, pode-se contrapor a serenidade de sua vida amorosa ao lado da esposa Carolina e os complexos dramas psicológicos vividos pelas personagens de Dom Casmurro.

 

 

O professor poderá ampliar a abrangência da afirmativa: em arte tudo é possível. Mas será mesmo? Isso coloca em discussão os conceitos de verdade e verossimilhança, esta sim, uma exigência interna da arte. Assim, num texto literário, não cabe perguntar se tal personagem realmente existiu. Ela passa a existir a partir do momento em que o autor lhe dá vida. Da mesma maneira, diante de um quadro como Paisagem com Touro, de Tarsila do Amaral, não cabe perguntar se tal lugar existe de fato. As cores e formas empregadas por um pintor criam um mundo paralelo ao mundo real.

 

 

2ª etapa 

Os alunos poderão examinar obras do gênero realismo fantástico.

Dois lançamentos recentes, na literatura brasileira, ilustram essa "parceria": a recriação de Dom Casmurro, de Machado de Assis, por Fernando Sabino (Amor de Capitu) e por Domício Proença Filho (Capitu - Memórias Póstumas). Ambos dialogam com a obra machadiana. Fernando Sabino reescreve em terceira pessoa o romance, enquanto Proença Filho dá a Capitu a "oportunidade" de se defender da acusação de Bentinho.

O professor poderá discutir a validade e o porquê dessas "parcerias" de mão única e selecionar trechos das três obras, para analisar com os alunos os resultados a que chegaram os autores contemporâneos. Em seguida, propor que os alunos reescrevam, à sua maneira, o trecho original. Também poderá encarregá-los de escrever diálogos entre personagens de autores diferentes. Um exemplo: Gabriela - da obra de Jorge Amado - dialoga com Rita Baiana, de O Cortiço.

3ª etapa 

No terreno da poesia, o professor poderá trazer para os alunos o Poema Desentranhado de Uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt (abaixo), resultante de colagem, e sugerir que eles façam a mesma coisa, "desentranhando" poemas de notícias de jornal.

 

 

Este poema foi "montado" por Manuel Bandeira a partir de um texto de Augusto Frederico Schmidt que tratava da poesia do próprio Bandeira.

O professor poderá pesquisar as preferências dos alunos a respeito de leitura, teatro, cinema e as razões dessas preferências. Em seguida, analisar a natureza da linguagem de cada uma dessas manifestações. Por exemplo, obras literárias como Otelo e Dom Casmurro empreenderam abordagens refinadas de sentimentos como o ciúme, enquanto o cinema busca (por vezes excessivamente) a comunicação imediata com o espectador, por meio de clichês: o detetive "durão", a mulher "devoradora de homens" etc (veja quadro abaixo). Mas, por vezes, o cinema se eleva acima dos clichês. E então surgem personagens que fazem rir e emocionam ao mesmo tempo, a exemplo de Carlitos, o vagabundo imortalizado por Charles Chaplin.
Os alunos podem ler Macunaíma, de Mário de Andrade, assistir ao filme de Joaquim Pedro de Andrade, inspirado no livro, e comparar as duas obras.


Além dos clichês

Certos personagens do cinema superam clichês e estereótipos e têm o dom de fazer rir e comover ao mesmo tempo. É o caso do vagabundo imortalizado por Charles Chaplin

 

Clichê primordial

Nada causa tanto impacto quanto uma torta de creme na cara. Não por acaso, o pastelão tornou-se por excelência o clichê humorístico do cinema

 

Clichê da sedução

Columbia / Tri-star Pictures

A protagonista de A Um Passo da Eternidade encarna o clichê da "devoradora de homens". O filme é de 1953. Nas décadas seguintes, as cenas de amor nas telas ficaram cada vez mais tórridas


Poema Desentranhado de Uma Prosa de Augusto Frederico Schmidt

A luz da tua poesia é triste mas pura.
A solidão é o grande sinal do teu destino.
O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos.
Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de São João
E hoje estão para sempre dormindo profundamente.
Da poesia feita como quem ama e quem morre
Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza
Naturalmente
- Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
(Manuel Bandeira - Poesia Completa & Prosa, Rio de Janeiro, José Aguilar, 1967)

Créditos:
Carlos Emílio Faraco
Formação:
Professor de português de São Paulo
Autor Nova Escola

COMPARTILHAR

Alguma dúvida? Clique aqui.