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O legado romano no mundo contemporâneo

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

- Discutir os legados da civilização romana presentes no mundo contemporâneo, em especial na sociedade brasileira.

Conteúdo(s) 
Legados da civilização romana presentes, por exemplo, em nosso idioma, na política, no Direito e nos grandes eventos esportivos.
Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 

Cópias da reportagem Ode ao realismo (BRAVO!, Ed. 175, março de 2012) para todos os alunos e computador com acesso à internet.

Revista BRAVO! - Ed. 175 Plano de aula relacionado à edição 175 de BRAVO!

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Mais de 1.500 anos após sua desagregação, a civilização romana ainda mexe com o imaginário da sociedade contemporânea, que contempla constantemente suas realizações. É o caso da exposição Roma - A Vida dos Imperadores, no Museu de Arte de São Paulo (MASP) entre 25 de janeiro e 22 de abril, que oferece aos visitantes a chance de se transportar ao tempo dos antigos romanos por meio de um rico conjunto de 370 peças originais, provenientes de acervos públicos italianos e que revelam aspectos da vida cotidiana, da política e da arte dessa importante civilização. A exposição é também uma oportunidade de vislumbrar como os legados romanos estão presentes em nossa cultura atual ainda que, muitas vezes, passem despercebidos - discussão que é o objetivo central deste plano de aula.

Um dos legados mais marcantes em nosso cotidiano está presente na sala de aula desde a primeira palavra trocada entre o grupo. A Língua Portuguesa tem suas origens no Latim, idioma falado pelos antigos habitantes de Roma. O processo de expansão do Império Romano possibilitou a disseminação de sua linguagem por meio de ações administrativas, políticas e econômicas. Com o declínio da civilização romana no século 5 d.C. e a consequente fragmentação de suas antigas possessões, versões regionais do latim vulgar, falado pelos cidadãos comuns - soldados, comerciantes, colonos, entre outros -, desenvolveram-se, sobretudo na Europa continental, e deram origem às chamadas línguas neolatinas ou românicas, que têm como principais representantes o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno.

Comente com a turma que, mesmo após constantes transformações ao longo dos séculos, a Língua Portuguesa ainda guarda uma série de expressões latinas, sendo que muitas delas são de uso frequente. Ou seja, ao contrário do que geralmente se diz, o latim não é um idioma morto. Ele está presente na origem de muitas das palavras que usamos no dia-a-dia, como domingo, que vem de dominus e significa senhor, e em expressões completas: o candidato a uma vaga de emprego entrega seu curriculum vitae à empresa e, por vezes, alguém é persona non grata em algum lugar. As heranças do latim também estão em certas áreas do conhecimento, como no vocabulário técnico do Direito, e o idioma romano é a língua oficial da Igreja Católica.

Apresente aos alunos uma pequena lista com exemplos de expressões latinas utilizadas até hoje e procure observar quais são as mais conhecidas entre eles:

Alibi: em outro lugar
Alter ego: outro eu
A posteriori: a partir do que vem depois
A priori: a partir do que vem antes
Carpe diem: aproveite o dia
Corpus Christi: Corpo de Cristo
Curriculum vitae: percurso de vida
Data (maxima) venia: com a devida permissão (com o devido consentimento)
Et caetera (etc.): e outras coisas
Fórum: foro
Habeas corpus: que tenhas o corpo
Honoris causa: a título de honra
Idem: o mesmo, a mesma coisa
In loco: no lugar
In memoriam: em memória de
In vitro: no vidro
Inter vivos: entre vivos
Lato sensu: no sentido lato, geral
Per capita: por cabeça
Persona non grata: pessoa indesejada
Sine qua non: sem a qual não
Statu quo: no estado em que se encontrava (antes)
Stricto sensu: sentido restrito
Sui generis: do seu gênero, peculiar, especial
Quorum: de quantos (número legal ou estatutário)

Diga à turma que os romanos também se notabilizaram pela forma como organizaram sua sociedade, regulamentada por um amplo conjunto de leis, necessário à estabilidade do Império. Sendo uma civilização multicultural, com fronteiras vastas e em constantes conflitos, os códigos jurídicos e legislativos instituídos desde suas origens até a queda do Império do Oriente (1453), foram importantes para a organização administrativa e social. Esses códigos influenciaram de forma marcante códigos jurídicos posteriores, desenvolvidos em especial nas antigas áreas de influência ou conquista. Um bom exemplo são as Ordens Régias portuguesas (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), compiladas a partir do século 15, que, por sua vez, deram origem ao que viria ser o Direito brasileiro.

Comente que o sistema jurídico romano se aperfeiçoou gradualmente. Seu provável ponto de partida foi a compilação da chamada "Lei das Doze Tábuas", no século 5 a.C., posteriormente dividida em pelo menos três áreas: o ius civile (Direito civil), código aplicável aos cidadãos de Roma; o ius gentium (Direito das gentes ou dos estrangeiros), conjunto de normas comuns ao povo romano e aos povos conquistados; e o ius naturale (Direito natural), que representava o aspecto filosófico do Direito, baseado na ideia de que existiam direitos naturais inerentes ao ser humano.

Conte que, ao lado sistema jurídico, a organização política foi outra marca importante. O senado romano é uma das mais antigas instituições políticas colegiadas, originada em antigos conselhos de anciãos. Existente desde o período monárquico (753 a.C. - 509 a.C.), o senado ganhou mais importância a partir do período republicano (510 a.C. - 27 a.C.), quando os senadores deixaram de ser meros conselheiros do rei e passaram a ser o centro do governo, controlando as finanças públicas, a justiça e a religião. Já com o Império (27 a.C. - 476 d.C.), o senado deixou de ser o centro do poder até se transformar em um órgão de administração municipal, por volta do século 3.

Por fim, informe que o senado romano é a origem de uma de nossas atuais instituições políticas de representação: a Câmara Municipal. O modelo político-administrativo romano esteve presente na Península Ibérica e, consequentemente, estendeu-se ao Brasil colonial.

As câmaras portuguesas mantiveram parte da estrutura básica do modelo romano, representado pela Lei Municipal Júlia (Lex Julia Municipalis), criada durante o governo de Julio César e modificada ao longo do tempo. No Brasil, o modelo concentrou os poderes legislativo, executivo e judiciário até a Proclamação da República, quando as Câmaras Municipais passaram a cuidar apenas da legislação.

2ª etapa 

Comece retomando as discussões da aula anterior e dizendo que vocês continuarão a discutir os legados da civilização romana. Pergunte o que a turma sabe sobre a expressão "pão e circo" e destaque em seguida suas origens romanas. Conte que os romanos inauguraram a organização dos espetáculos para grandes públicos, presentes em praticamente todas as cidades do Império. Explique que a política de distribuição de alimentos e promoção de entretenimento (daí a expressão "pão e circo" ou panem et circenses) teria sido uma das principais formas de controle social da plebe romana.

Comente que a crescente preocupação dos governantes romanos com a manutenção do circo culminou com a construção das grandes arenas de espetáculos, como o Anfiteatro Flávio, conhecido como Coliseu Romano, construído por volta do ano 80 d.C. e palco dos combates de gladiadores, com a capacidade para até 50 mil espectadores. Outro anfiteatro importante foi o Circus Maximus, construído por volta de 50 a.C. - no auge, ele teria contado com a incrível capacidade de 250 a 300 mil espectadores ávidos pelas corridas de cavalos. No que diz respeito à expectativa de público, as estruturas erguidas pelos romanos não devem nada aos estádios atuais.

Exponha que alguns pesquisadores apontam que a capacidade de público das arenas (mesmo com cifras impressionantes) não era suficientemente ampla para abrigar toda a plebe. Seria falsa, portanto, a interpretação de que a população comum possuía, necessariamente, cadeira cativa nos espetáculos que, também ao contrário do que se imagina, não eram permanentes. Não obstante, assim como não havia espaço para todos nas arenas, não havia pão que alimentasse toda população. Mesmo com total atenção do Estado e popularidade entre os cidadãos do Império, o panem et circenses não alcançava a todos da mesma forma, o que certamente fez com que outras estratégias de sustento e diversão fossem elaboradas pela plebe romana.

Siga contando que os espetáculos encenados nas arenas costumavam ser organizados com pompa e circunstância e geralmente eram dirigidos por um magistrado, responsável pela organização do circo. O programa, que podia começar ao raiar do dia, contava com execuções de condenados, apresentações teatrais, lutas entre animais (como touros, ursos, tigres e leões), apresentações dos venatores (gladiadores especializados no combate com feras) e, finalmente, combates entre gladiadores.

No caso dos jogos dos gladiadores, espetáculo carregado de emoção, dor e morte, cujo palco principal era o Coliseu de Roma, os participantes (homens e mulheres) podiam ser divididos em equipes adversárias que se enfrentavam diante do público, dividido na torcida pelos grupos em combate. Explique à turma que a provável origem dessas lutas remonta a antigas práticas funerárias dispensadas à aristocracia romana. A encenação de combates e cenas de choro e tristeza faziam parte das homenagens ao falecido. O ritual funerário era um verdadeiro espetáculo, cuja finalidade era cristalizar uma determinada memória a respeito do homenageado, o que possibilitou a popularização das lutas, mais frequentes e importantes a partir do século 1.

Nas arenas, os combates podiam durar até que um dos oponentes admitisse a derrota, sendo que, nesse caso, a misericórdia ou a morte eram decididas pelo público e pelo organizador. As lutas também poderiam obedecer à regra do sine missione, ou seja, sem a possibilidade de misericórdia. O delírio do público se confundia com o clima teatral dos espetáculos e com a sede de fama e prestígio perseguida por muitos.

Comente que a ideia de que os escravos eram obrigados a se transformar em gladiadores não corresponde necessariamente ao que dizem os historiadores. A gladiatura era um espetáculo e apenas os mais aptos às artes do combate chegavam às arenas na condição de gladiador. Em muitos casos, as pessoas se apresentavam como voluntárias ao treinamento ou optavam por ele como forma de comutar condenações por crimes. Entre os escravos, ser escolhido para se tornar um gladiador poderia significar uma via para a liberdade. Só os mais fortes e ágeis eram selecionados e encaminhados ao ludus, uma espécie de centro de treinamento. Assim como ocorre com os astros dos esportes hoje em dia, os gladiadores, se fossem bem sucedidos, ganhavam fama e prestígio no mundo dos espetáculos.

Terminadas essas explicações iniciais, exiba para a turma dois recortes do filme Gladiador, dirigido por Ridley Scott. O ator Russell Crowe interpreta o general romano Maximus que, envolvido nas disputas pela sucessão do imperador Marcus Aurelius, em 180 d.C., sobrevive a uma tentativa de assassinato, perde sua família e se torna gladiador. A história oferece uma boa amostra da história dos jogos e do clima nas arenas de luta. O primeiro trecho a ser exibido mostra Maximus em combate na arena de uma província romana e as reações do público diante do espetáculo. Já o segundo trecho mostra o protagonista no Coliseu, em combate contra outro gladiador e animais, revelando a estrutura da arena de combate e a dinâmica do espetáculo.

Após exibir os trechos do filme, inicie um debate sobre a proximidade entre os espetáculos de arena da Roma antiga e as atuais disputas esportivas profissionais, como os campeonatos de futebol e os eventos conhecidos como MMA - Mix Martial Arts ou Mistura de Artes Marciais. Acrescente à discussão a exibição do trailler do filme Como água, que narra a história de um combate do lutador brasileiro Anderson Silva, e discuta as atuais disputas de artes marciais como um possível legado romano. Chame a atenção dos alunos para a existência de elementos próximos àqueles presentes nos antigos combates de gladiadores, como a busca por fama e prestígio, o enfrentamento em grandes arenas, contando com grandes públicos - não apenas no palco da luta, mas também por meio das transmissões televisivas - e a persistência da atração pela violência.

Discuta com os alunos se podemos considerar os atuais espetáculos esportivos, assim como as grandes produções midiáticas, um legado romano. Procure incitar uma reflexão a respeito da persistência do "pão e circo", da existência de uma política, oficial ou não, de entretenimento das massas e de seu alcance na população brasileira.

Avaliação 

Observe, com base nos conteúdos ministrados e nas discussões em sala, se a turma conseguiu identificar e compreender a existência de elementos culturais e políticos romanos em nossa contemporaneidade. Em relação à discussão promovida na segunda aula, procure notar se os alunos estabeleceram uma relação clara entre os grandes espetáculos romanos e os contemporâneos, relacionando-os à chamada política do "pão e circo" e identificando similaridades e diferenças.

Créditos:
Luiz Gustavo Cota
Formação:
Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense.
Autor Nova Escola

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