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O concretismo e a novidade que permanece

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Reconhecimento das características de resenha, leitura e apreciação de poemas e reflexão sobre o ser da literatura

Conteúdo(s) 
  • Literatura, concretismo e neoconcretismo
Ano(s) 
Tempo estimado 
Três aulas de 50 minutos
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

A resenha de VEJA sobre o livro de Haroldo de Campos incita análises e discussões significativas em sala de aula. Podemos pensá-las e organizá-las com base em três vertentes: a resenha; o concretismo, os interlocutores e desdobramentos desse movimento; e o possível ser da literatura. A proposta a seguir tem o mérito de eleger um tópico pouco discutido nas aulas de literatura, de pensar o movimento como tributário de uma tradição e, ademais, levar a uma reflexão sobre a literatura a partir de trecho de um dos esteios do concretismo, Ezra Pound.

 

Antes de iniciar a leitura, informe aos alunos o tema da resenha: a coletânea Entremilênios, obra póstuma do poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos, morto em 2003 e um dos representantes do movimento concretista paulista, iniciado na década de 1950. Além de Haroldo, seu irmão Augusto e Décio Pignatari, ambos vivos, formavam o trio de concretistas paulistas. Reforce com a turma que esta aula é dedicada ao reconhecimento das características da resenha, gênero que já deve ter sido estudado. Cabe aos jovens, portanto, identificar durante a leitura aspectos referentes a esse gênero: informações sintéticas sobre o conteúdo do livro e a avaliação desse conteúdo.

Comece a abordagem do texto pelos elementos da primeira página - título e ilustração. Vale a pena perguntar o que o título - "O Concretista Barroco" - sugere. Se a garotada já viu elementos do barroco nas aulas de literatura e tomou contato com a obra de Padre Vieira, incite a fazer ilações sobre possíveis características da produção do autor analisado na resenha. Outro item a ser observado é a imagem: a justaposição entre o autor resenhado e a figura de Homero, autor da Ilíada e da Odisséia. Nessa primeira página, duas referências se apresentam. Caso os alunos não as conheçam, solicite que pesquisem em casa sobre elas. Informe-os também que a pesquisa deve estender-se a três outras referências mencionadas na resenha: Divina Comédia, George Orwell e Ezra Pound. Eles devem anotar a síntese das informações pesquisadas no caderno, bem como a fonte da pesquisa.

Após essa introdução, inicie a leitura do texto com os estudantes. Sugira que marquem elementos referentes à resenha, assinalando com símbolos ou cores distintas as informações sobre o conteúdo e a avaliação da obra. Durante a leitura, dúvidas pontuais sobre vocabulário devem ser esclarecidas. Deixe para o final os esclarecimentos sobre o formalismo e os cadernos culturais, pois esses dois aspectos relacionam-se ao contexto do movimento e requerem um tempo maior.

Ao abordar o epíteto "formalista", explique que é uma corrente crítica da literatura desenvolvida no início do século XX na Rússia e propagada no Ocidente a partir da década de 1950. Ela enfatizava a forma, ou seja, os elementos internos do texto literário. É interessante assinalar que os chamados "engajados" - esses participantes de outra corrente crítica, a sociológica, fortemente presente no Brasil - atacavam a suposta alienação dos formalistas por desconsiderarem os aspectos sociais envolvidos nas obras; isso justificava o patrulhamento sofrido pelos concretistas. Os suplementos culturais dos grandes jornais, vale a pena esclarecer, tiveram um papel importante na cultura brasileira nos anos 1950 e 1960. Eles eram palco de discussões teóricas e de veiculação de manifestações poéticas.

Esclarecidos esses itens, analise com os jovens se os aspectos identificados por eles como pertinentes à resenha são corretos. Assinale qualidades dessa resenha: a concisão, a elegância das construções, o conhecimento do autor sobre o concretismo que não se restringe ao conteúdo do livro. Pergunte qual a síntese da crítica de Nelson Ascher às análises comumente feitas à obra de Haroldo de Campos. Ouça-os e retome o posicionamento do autor: a obra de Campos ultrapassa o concretismo. Finda a discussão da resenha, peça que os estudantes marquem, no texto, informações que lhes permitam identificar características do concretismo e informe ser esse o tema da próxima aula.

2ª etapa 

Retome a pesquisa realizada em casa sobre os autores mencionados no texto e, em caso de desconhecimento da turma, sobre o barroco. Após essa retomada, distribua alguns poemas concretistas do grupo paulista. Privilegie obras em que o caráter visual prepondere. Peça que os alunos leiam e discutam as características observadas. Provavelmente o mais citado será o visual, a organização espacial do poema. Esse deve ser o gancho para a apresentação de uma das peculiaridades mais marcantes do movimento: a quebra da organização do poema em versos e a ênfase no significante, ou seja, na materialidade da palavra e na reorganização do texto/poema no espaço da página. Reforce que essa é uma das características das construções concretistas, mas há outras. Ascher cita a brevidade. Certamente os poemas observados possuem poucas palavras ou organizam-se a partir da exploração das variantes de uma única palavra. Outro ponto a ser observado é a exiguidade de conectivos, ou seja, de elementos que apontam para o discurso e a argumentação, e a ausência de marcas explícitas de subjetividade. Aqui o caráter verbivocovisual da poesia concreta pode ser mencionado. O caráter plástico, visual, é um dos elementos, mas ela, como toda poesia, acessa também as dimensões verbais e sonoras.

Realizadas essas observações, passe à análise dos outros pontos mencionados na resenha. O concretismo é um movimento de vanguarda, associado a manifestos e querelas. Assinale que o caráter vanguardista associa-se ao desejo de ruptura com uma lírica de caráter subjetivista e do discursivo que os adeptos do movimento identificavam na cena nacional, na ruptura com a organização da poesia em versos. Os concretistas paulistas defendiam, por meio de manifestos, a proximidade da poesia com a ciência, com a matemática. A revista Noigandres, publicada de 1952 a 1962, veiculava poesias e ideias concretistas do grupo. Um desses manifestos, publicado no número 4 da revista, em 1958, intitulado Plano-piloto para a Poesia Concreta, de autoria dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, associa essa poesia à justaposição analógica - "contra uma poesia de expressão, subjetiva e hedonista" - e à criação e resolução de problemas exatos. A defesa da exatidão, do caráter matemático dessa criação, foi um dos elementos apontados por Ferreira Gullar e um grupo de artistas do Rio de Janeiro para a ruptura com o grupo paulista. Em 1959, eles publicaram o Manifesto Neoconcreto, em que a dissidência se firma ao criticar a "perigosa exacerbação da racionalidade" do trio paulista.

Pródigos em polêmicas, os concretistas foram também responsáveis pela expansão e divulgação de ideias e autores até então pouco conhecidos no Brasil. A defesa que faziam da obra racional, entre nós, já se havia manifestado. A obra O Engenheiro, de João Cabral de Melo Neto, publicada em 1945, é um exemplo. Os concretistas divulgaram no Brasil as obras de Stéphane Mallarmé (1842-1898), Ezra Pound (1885-1972), Guillaume Apollinaire (1880-1918) e James Joyce (1882-1941). Um dado interessante é levar à sala de aula alguns poemas de Mallarmé em que, já no final do século XIX, a disposição do texto na página apresentava-se como um recurso poético.

Vale dizer, no entanto, que os concretistas pouco seguiram as recomendações dos próprios manifestos, sobretudo nas décadas seguintes. Isso fica claro na resenha de VEJA. Nela, Nelson Ascher provoca os seguidores e críticos que radicalizaram as concepções concretistas de Haroldo de Campos e não viram seu distanciamento das teses defendidas nos manifestos. Entremilênios é um exemplo, mas não o único. A obra mostra a aproximação com o barroco, ou seja, o engenho, a busca da palavra por meio do manejo da língua, de criações e recriações lexicais, algo identificável há muito na obra de Haroldo.

Para finalizar essa aula, elabore com a classe um quadro com as características do concretismo e com as manifestações poéticas que os influenciaram. Assinale momentos importantes para o movimento - a criação da revista Noigandres; a Exposição Nacional de Poesia Concreta em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 1956 e 1957, respectivamente; a dissidência do neoconcretismo e o que alguns críticos identificam como possíveis desdobramentos do movimento: o tropicalismo no final dos anos 1960, a poesia marginal na década seguinte e a produção atual de Arnaldo Antunes.

3ª etapa 

Leve um exemplar de Entremilênios à sala. Se não dispuser de um, acesse o site de VEJA, que disponibiliza trechos do livro. Leia os poemas com os alunos e assinale o quanto se distanciam das manifestações da década de 1950. Mencione a presença, em Entremilênios, de Homero nas traduções de trechos da Odisséia e nos poemas remissivos a essa obra, fato que reforça a imagem do grego na ilustração da resenha. Outra atividade indicada é, caso a escola disponha de uma sala de informática, a visita aos sites de Haroldo e Augusto de Campos (confira os endereços eletrônicos abaixo). Os alunos podem, no endereço de Augusto, ler o Plano-piloto da Poesia Concreta citado anteriormente e apreciar os desdobramentos de sua poesia com a absorção dos recursos eletrônicos. No endereço de Haroldo, têm acesso à produção do autor, que assinala suas várias traduções e recriações. Em São Paulo, vale uma visita à Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Localizada na Avenida Paulista, ela recebeu a biblioteca particular e parte dos móveis do escritório do poeta.

Para finalizar, que tal uma discussão sobre um trecho de Ezra Pound, crítico e poeta americano citado no texto de Ascher e um dos interlocutores dos concretistas? O trecho está em ABC da Literatura e afirma: "A literatura é a novidade que PERMANECE novidade". Solicite aos alunos a redação de um pequeno texto comentando essa afirmação, relacionando-a à abordagem da poesia de Haroldo de Campos. A aula pode ser finalizada com a leitura e discussão dos posicionamentos dos alunos.

 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Poesia Concreta Brasileira, Gonzalo Aguilar, EDUSP, tel. (11) 3091-4008
Entremilênios, Haroldo de Campos, Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885-8388
Mallarmé, Stéphane Mallarmé, Ed. Perspectiva

INTERNET
Página de Augusto de Campos
Página de Haroldo de Campos

Autor Nova Escola
Créditos:
Conceição Aparecida Bento
Formação:
Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora universitária

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