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Memórias como gênero literário

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Analisar e reconhecer os gêneros literários memorialistas (autobiografia, crônicas, correspondências, lendas, literatura de viagens, poesia, diário)
  • Produzir textos narrativos a partir das histórias de família
Conteúdo(s) 
  • Memorialismo literário
  • Genealogia
  • Produção de textos
Ano(s) 
Tempo estimado 
2 aulas
Material necessário 
  • Cópias do artigo "Exercício de otimismo", de Lya Luft (VEJA, 2322, 22 de maio de 2013)
  • Cópias do poema "Vintém de cobre", de Cora Coralina
  • Cópias de trecho do Primeiro capítulo de "Baú de ossos", de Pedro Nava, disponível aqui 
  • Cópias do poema "Profundamente", de Manual Bandeira

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

O passado pessoal e coletivo, com suas histórias, memórias, acontecimentos e particularidades, sempre foi uma fonte muito importante para produção literária. Contar a própria história ou fazer dela base para construção de uma obra ficcional é um exercício literário realizado por muitos autores. A narrativa do passado, seja de forma realista ou saudosista, psicológica ou sociológica, serve de excelente fonte para a leitura e produção de textos.
Autores de várias épocas e estilos criaram obras memorialistas. Muitas delas se tornaram clássicas, e a diversidade narrativa prova que narrar os fatos do passado pode ser bastante estimulante. A literatura de viagens, por suas características próprias, sempre foi uma referência no gênero memorialista. Obras que relatam as aventuras e desventuras de personagens como os exploradores do início da colonização, como Cabeza de Vaca e Hans Staden, as viagens de Marco Polo, ou mais recentemente, as memórias de antropólogos, arqueólogos e exploradores, seduziram leitores de várias partes do mundo.
A literatura também utiliza a memória como inspiração. No Brasil, autores de várias épocas produziram obras marcadas pelo memorialismo. Taunay, Casimiro de Abreu, Cora Coralina, Pedro Nava, Rubem Braga, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Lins do Rego são alguns nomes que produziram literatura sob o signo da memória.

Comece a aula falando sobre o gênero memorialístico na literatura. Mostre aos alunos que vários autores produziram obras com o intuito de preservar memórias de fatos marcantes de suas vidas, dando vida a obras literárias de grande importância.

Mostre aos alunos os vários tipos de textos literários que podem se enquadrar no memorialismo: autobiografia, cuja característica principal é a narrativa pessoal da própria história; correspondências, que por sua forma pessoal e privada, acabam expondo detalhes e lembranças das vidas dos missivistas; crônicas, em que os autores fazem uso de acontecimentos cotidianos como inspiração; diários, por si só destinados a preservar s memórias de quem escreve; lendas, que são histórias contadas de geração a geração, muitas vezes baseadas em nossa memória ancestral; genealogia, que narra a história das famílias e poesia lírica que, por sua característica sentimental, é um gênero que muitas vezes mistura recordações, nostalgia e memórias da vida do autor.

Ressalte que em qualquer texto memorialístico, as características principais são: sequência narrativa (o autor conta uma história, a sua própria ou a de outrem, em ordem direta ou indireta); confessionalismo (o tom de exposição da própria vida, como uma forma de redimir ou explicar o passado); subjetivismo (o autor expõe sua visão absolutamente pessoal dos fatos, por vezes trazendo um aspecto psicológico para a narrativa).

Explique as características da crônica e diga aos alunos que objetivo desta sequência é a produção de crônicas e poesias a partir de suas próprias memórias ou da sua memória familiar.

Utilize o texto de Lya Luft (VEJA, 22 de maio de 2013) como ponto de partida para estimular os alunos a produzir textos narrativos a partir de suas memórias individuais e familiares. Peça que leiam e que observem o tom memorialístico, especialmente no trecho em que a autora cita sua relação com a mãe em tom saudoso e alegre, ainda que nostálgico.

Ao final da aula, peça para os alunos pesquisarem a história de suas famílias. Oriente-os a perguntar aos pais e outros familiares sobre fatos marcantes da história familiar (pais, tios, avós e bisavós). Datas e locais de nascimentos e falecimentos, origens, ocupação, formação, além de acontecimentos marcantes como viagens, participação em momentos históricos, ou até mesmo histórias peculiares, trágicas ou engraçadas, podem ser anotadas. Deixe claro, entretanto, que o objetivo é apenas recolher os dados, pois a produção será feita nas aulas seguintes.

2ª etapa 

Distribua aos alunos cópias do poema "Vintém de cobre", de Cora Coralina, e oriente a leitura, pedindo que observem o tom confessional, autobiográfico, nostálgico e subjetivo presente no poema.

 

Vintém de cobre (freudiana)

Eu vestia um antigo mandrião
de uma saia velha de minha bisavó.
Eu vestia um timão feio
de pedaços, de restos de baeta.

Vintém de cobre:
ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.

Vintém de cobre:
dinheiro antigo.
Moeda escura,
recolhida, desusada.
Feia, triste, pesada.

Corenta. Vintém. Derréis.
Dinheiro curto, escasso.
Parco. Parcimonioso
de gente pobre,
da minha terra,
da minha casa,
da minha infância.

Vintém de cobre:
Economia. Poupança.
A casa pobre.

Mandrião de saias velhas.
Timão de restos de baeta.
Colchas de retalhos desbotados.
Panos grosseiros, encardidos, remendados.
Vida sedentária.
Velhos preconceitos.
Orgulho e grandeza do passado.

Pé-de-meia sempre vazio.
E o sonho de ajuntar.
Melhorar de vida, prosperar,
num esforço inútil e tardio.

Corenta, vintém, derréis...
Eu ajuntando.
Mudando de caixinha, mudando de lugar,
Diziam, caçoando, as meninas da escola:
"- Muda de lugar que ele aumenta..."
Eu acreditava.
Guardava cinquinho a cinquinho
na esperança irrealizada
de inteirar quinhentos réis.

Fui criança do tempo do cinquinho,
do tempo do vintém.
Do antigo mandrião
de saias velhas da vovó.
De cobertas de retalho,
de panos grosseiros encardidos,
remendados.
De velhos preconceitos
- orgulho e grandeza do passado.
Opulência. Posição social.
Sesmarias. Escravatura.
Caixas de lavrado.
Parentes emproados.
Brigadeiros. Comendadores,
visitando a Corte,
recebidos no Paço.
Decadência...
Tempos anacrônicos, superados.

Fui menina do tempo do vintém.
Do timão de restos de baeta.
Fiquei sempre no tempo do cinquinho.

No tempo dos adágios que os velhos
sentenciavam
enfáticos e solenes:
"- Quem nasce pra derréis não chega a vintém."
Pessimismo recalcando
aquele que pensava evoluir.

"Vintém poupado, vintém ganhado."
Estatuto econômico. Mote gravado
no corpo de algumas emissões.
"Na pataca da miséria o diabo tem sempre um vintém."
Isto se dizia, quando moça pobre se perdia.
"Quem compra o extraordinário
vê-se obrigado a vender o necessário."
Doía... impressionava.
Era a Sabedoria que falava.

E a gente sentia até uma lagrimazinha de remorso
no canto do olho.
E se via mesmo de trouxinha na cabeça,
andando de déu em déu,
perseguida dos credores.
A casinha penhorada.
Os trenzinhos dados à praça.
Tudo irrecuperado, perdido,
porque tinha comprado o extraordinário:
um vestido de chita cor-de-rosa
pintadinho de azul.

O tempo foi passando, foi levando:
minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.
A velha casa.
Os velhos preconceitos
de cor, de classe, de família.
O tempo, velho tempo que passou,
nivelou muros e monturos.
Remarcou dentro de mim
a menina magricela, amarela,
inassimilada,
do tempo do cinquinho.

Eu tinha um timão de restos de baeta.
Eu tinha um mandrião de uma saia velha
de minha bisavó.

Vintém de cobre:
Ainda o vejo
ainda o sinto
ainda o tenho
na mão fechada.
Moeda triste,
escura, pesada,
da minha infância,
da casa pobre.

Cora Coralina. In: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Editora Global, 2005.


Observe também que um texto memorialístico literário é marcado por sua capacidade de fazer uma análise contextual do tempo a que se refere a partir de uma memória pessoal, aparentemente sem grande relevância. A poetisa Cora Coralina consagrou-se por sua poesia ter se tornado uma espécie de "guardiã" de um passado remoto, tornando-o perene e atemporal.

Outro autor que pode servir de parâmetro para uma compreensão mais aprofundada do memorialismo é o mineiro Pedro Nava. Toda sua obra está baseada em aspectos memorialísticos bastante pessoais. Ao narrar sua história e de sua própria família, ele analisa aspectos determinantes da passagem do século 19 o século 20. Em muitos aspectos, Nava teve sua obra comparada com a de Marcel Proust, autor do clássico da literatura moderna "Em busca do tempo perdido", cujos sete volumes têm como centro a questão da memória pessoal enquanto um processo de compreensão da passagem do tempo.

Selecione um trecho da obra "Baú de ossos" de Pedro Nava e leia para a turma, procurando enfatizar o aspecto memorialístico contrapondo-se a um contexto histórico e social.


Após a leitura, selecione alguns alunos e peça que contem quais as histórias que encontraram. Estimule a turma a refletir sobre como as memórias familiares são parte da formação individual de cada um de nós. Temos em nós características de nossos ancestrais, mesmo os mais antigos? De que forma a definição da família como um núcleo social identificado por suas características é fruto dessa ancestralidade? Qual o papel da tradição na formação de nosso caráter? Essas reflexões poderão direcionar a produção dos textos, ao final da sequência.

Distribua à turma cópias de "Profundamente", de Manual Bandeira. Evidencie a presença da nostalgia quase trágica no poema, que fala da perda da inocência e da orfandade do poeta, ao retratar metaforicamente seus familiares (e suas memórias de tempos felizes da infância) dormindo profundamente - ou seja, os mortos, vivem apenas na memória, destacada no poema. É interessante fazer uma comparação com o poema "Vintém de cobre", de Cora Coralina, que tem um tom de nostalgia parecido com o de Bandeira.

 

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira. In: Estrela da vida inteira. Editora Nova Fronteira, 1994.


Finalize propondo uma atividade de produção de textos. A ideia é que, a partir dos modelos literários analisados, os alunos produzam individualmente, na forma de crônica, poema ou uma narrativa semificcional, narrativas que tratem de histórias sobre sua própria família ou memórias pessoais.

Alguns assuntos que podem render boas narrativas: o modo como os pais se conheceram e se casaram; a história de algum familiar que tenha imigrado; a participação de familiar em algum acontecimento histórico marcante; o estabelecimento da família em outra bairro, cidade ou país; algum familiar que tenha se destacado em alguma atividade. Mesmo uma memória pessoal marcante pode render um bom texto. Deixe-os livres para optar pela forma, que pode ser prosa ou poesia. O texto pode ser iniciado na sala de aula e finalizado em casa. Ao final do trabalho, digite os textos, monte um painel com as memórias e histórias descritas e exponha para o restante da escola.

Como encerramento, indique aos alunos a leitura de uma obra memorialística. Algumas sugestões: o livro "Poemas dos becos de Goiás e estórias mais", de Cora Coralina; "Baú de ossos", de Pedro Nava; "Memórias do cárcere", de Graciliano Ramos; "Verdade tropical", de Caetano Veloso; "O primeiro terço", do escritor americano Neal Cassidy.

Avaliação 

Avalie se seus alunos foram capazes de compreender a importância do gênero memorialístico para a literatura; e também se conseguiram produzir narrativas coerentes e coesas, a partir das memórias de sua família. Procure valorizar as histórias narradas, mas avalie aspectos criativos e formais da construção dos textos. Observe também se os alunos conseguiram distinguir os diferentes gêneros literários memorialísticos.

Créditos:
André Rosa
Formação:
Professor de Literatura e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), PR
Autor Nova Escola

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