Aqui você pode pesquisar e adaptar planos já existentes

 


Leitura crítica, função da linguagem e sua eficácia

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Desenvolver a habilidade de leitura crítica, estimulando a identificação do tipo de função de linguagem usada no texto e sua eficácia
Ano(s) 
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução 
Com alguma ironia, VEJA enfoca a enorme distância que separa os mandamentos dos livros de auto-ajuda destinados a quem sonha enriquecer e a dura realidade do saldo bancário apertado que assola as pessoas comuns. A reportagem tem ingredientes de sobra para introduzir uma lição sobre as funções conativa, emotiva e poética da linguagem. Se, conforme afirma a revista, "não há fórmulas para ficar milionário", resta ao menos a possibilidade de os estudantes produzirem receitas diversas para exercitar a redação. Duas obras de Julio Cortázar vão servir de inspiração.

Atividades 

Antes da leitura do texto, estimule cada aluno a dizer que conselho daria a um amigo candidato a magnata. Registre as respostas no quadro-negro. Talvez surjam idéias pouco escrupulosas, como ingressar na política para esconder na cueca os dólares obtidos ilicitamente sem precisar prestar contas à Justiça. Não importa. O que vale, aqui, é a forma dos textos. Chame a atenção para os verbos usados. Eles podem se apresentar no modo infinitivo (trabalhar, perseverar, extorquir etc.) ou no imperativo (estude, acredite, assalte e por aí vai). Mostre que, de um jeito ou de outro, as mensagens encerram instruções. Dependendo do emissor, elas devem ser entendidas como ordens ou meras sugestões.

Em seguida, partilhe o conteúdo da reportagem. Destaque o quadro que compõe a reportagem de VEJA e compare-o com os procedimentos mencionados pela turma. Há coincidências? Alguém já tentou pôr em prática essas regras? Obteve um mínimo de sucesso na empreitada? Se não, o que deu errado?

Se julgar necessário, relembre as funções da linguagem. Faça a turma perceber que, no gênero literário analisado pela reportagem, sobressaem-se as funções conativa e emotiva. Recorde brevemente cada conceito.

Função conativa - procura persuadir, seduzir o leitor. Nas mensagens em que ela predomina (o discurso publicitário, por exemplo), o emissor busca envolver o receptor com o conteúdo transmitido, levando-o a adotar determinado comportamento. Esse convencimento pode se dar de maneira sutil, mascarado por artifícios lingüísticos.

Função emotiva ou expressiva - por meio dela, o autor imprime no texto marcas de sua atitude pessoal: emoções, opiniões e avaliações. O leitor pode sentir, na mensagem, a presença de quem a escreveu. Essa função geralmente caracteriza cartas pessoais, resenhas críticas, poemas confessionais e canções sentimentais.

Peça que a turma traga, de casa, exemplares de livros de auto-ajuda (se possível, títulos que se propõem a criar indivíduos endinheirados).

Para seus alunos 

Instruções para dar corda no relógio 
Julio Cortázar
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão. Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

 

2ª etapa 
Organize os jovens em pequenos grupos e peça que todos localizem, nos livros, trechos em que as funções conativa e expressiva fiquem patentes. Esses recursos tornam, de fato, os conselhos convincentes e, do ponto de vista emocional, envolventes? Nesse sentido, podemos dizer que são bem elaborados e cumprem seu papel?

Providencie cópias dos textos de Julio Cortázar transcritos neste plano de aula e entregue-as às equipes. Ensine que o escritor, filho de argentinos, nasceu na Bélgica em 1914 e morreu em 1984, na França. Desde muito pequeno, produziu poemas de grande qualidade - o que levou os pais a desconfiar da autoria dos trabalhos. Seu nome está associado aos contos fantásticos. Entre suas criações, merecem ênfase os romances Histórias de Cronópios e de Famas e O Jogo da Amarelinha. Caso considere conveniente, você pode sugerir uma pesquisa posterior para familiarizar os adolescentes com o tema.

Deixe claro que, em Instruções para Dar Corda no Relógio e Instruções para Chorar, uma terceira função é acrescentada às duas analisadas até aqui: a poética. Que tal defini-la?

Função poética - manifesta-se quando a mensagem é configurada de forma inovadora e imprevista, incluindo combinações sonoras ou rítmicas e jogos de imagens ou de idéias. A linguagem é manipulada de modo pouco convencional, despertando no leitor surpresa e prazer estético. Predomina na poesia.

Dito isso, solicite que os grupos examinem os escritos de Cortázar com base nas informações recebidas. É possível desmembrá-los, identificando a função que prevalece em cada passagem?

Agora, convide as equipes a desenvolver decálogos para diferentes públicos, aspirantes a:
  • Líderes espirituais;
  • Empresários de sucesso;
  • Galãs de novela;
  • Atletas campeões;
  • Super-heróis;
  • Artistas de vanguarda;
  • Presidentes da República;
  • Amantes irresistíveis;
  • Amigos confiáveis;
  • Adversários temíveis;
  • Chatos de galocha;
  • Professores admiráveis;
  • Alunos exemplares; e
  • Autores de livros de auto-ajuda.

Cabe aos grupos decidir as opções mais adequadas a cada caso. O uso de verbos no modo imperativo soa agressivo ou incisivo? O abuso da função poética tira a objetividade do discurso? A citação de testemunhos reais dá credibilidade às regras? Há espaço para bom humor nas redações? Ou a sobriedade é a alma desse gênero?

Para finalizar, um representante de cada equipe vai ler para os colegas o que seu time produziu. Encomende comentários críticos.
Para seus alunos 

Instruções para chorar 
Julio Cortázar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mucos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe resulta impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro.

As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

  • Do Texto ao Texto - Curso Prático de Leitura e Redação, Ulisses Infante, Ed. Scipione, tel. (11) 3990-1788
Créditos:
Angelo Masson Neto
Formação:
Professor de Lingüística das Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), de São Paulo
Autor Nova Escola

COMPARTILHAR

Alguma dúvida? Clique aqui.