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Influência familiar na formação da identidade

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Compreender o conceito de socialização
  • Analisar e discutir o papel do ambiente familiar para os processos de socialização e construção da identidade individual (socialização primária)
  • Explorar outras formas de socialização como, por exemplo, o ambiente escolar e de trabalho (socialização secundária)
Conteúdo(s) 
  • Socialização
  • Hábitos cotidianos
  • Sociologia da família
Ano(s) 
Tempo estimado 
2 aulas
Material necessário 
  • Cópias da reportagem "Meu amado ex-enteado" (Veja,2310, 27 de fevereiro de 2013)

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

A matéria de Veja"Meu amado ex-enteado" discute a importância do ambiente familiar, argumentando que mesmo nos casos em que não existem laços sanguíneos, a família é o grupo social onde formamos os mais profundos e duradouros laços afetivos.

Segundo a sociologia, a importância da família para a formação individual é ainda mais complexa: é no ambiente familiar que aprendemos certos hábitos, costumes e valores que definirão nossas escolhas durante a vida adulta. Este plano de aula discute essa questão a partir do conceito de "socialização". Além de discutir a influência da família (socialização primária) na formação do caráter individual, aborda também outras formas de aprendizado social, que ocorrem nos círculos de amizade, na escola ou no trabalho (socialização secundária).


Inicie a aula com um bate-papo informal com o grupo. A ideia é incentivar a turma a pensar a respeito dos hábitos, preferências e costumes que nos acompanham no decorrer da vida. Como aprendemos sobre eles? Quem nos ensina? Como eles influenciam nossa vida cotidiana? Anote as reflexões no quadro.

Discuta o tema utilizando modelos práticos como, por exemplo, os hábitos alimentares. Peça que os alunos descrevam como é uma refeição típica em seu ambiente familiar, quais os alimentos mais comuns, como são os hábitos da família à mesa, como são as refeições em datas comemorativas etc. Para incentivar a participação de todos, você poderá usar o exemplo da sua própria família ou utilizar exemplos trazidos de filmes, livros ou até novelas.

Por meio da comparação entre os depoimentos dos alunos, elabore a noção de que nossos hábitos individuais são diretamente relacionados e variam conforme o ambiente familiar em que vivemos. Proponha frases como "nossos pratos favoritos, as normas de comportamento e etiqueta à mesa, modos de preparo dos alimentos e até mesmo os horários das refeições são aprendidos no ambiente familiar", e peça que os alunos opinem e discutam a respeito dessas afirmações. Eles concordam? Discordam? Eles percebem ou não uma relação entre os hábitos familiares e nossas escolhas como jovens e adultos?

2ª etapa 

Em seguida, distribua as cópias da reportagem de Veja e realize uma leitura dirigida. Se necessário, esclareça termos ou ideias apresentados no texto. Após a leitura, retome a discussão, procurando relacionar as ideias do texto de Veja com a discussão anterior. Qual a opinião da turma sobre o assunto? Para eles, qual o grau de influência dos padrastos e madrastas para a formação dos jovens citados na reportagem? Eles conseguem pensar em exemplos de hábitos, preferências e regras de conduta que aprendemos enquanto crianças, em nosso ambiente familiar? No caso de famílias "modernas" como as descrita no texto, de quem as crianças aprendem os hábitos, costumes e valores sociais?

Para continuar a discussão, utilize o texto de apoio a seguir:

Socialização primária

Para os sociólogos Peter L. Berger e Thomas Luckman, autores do livro "A Construção Social da Realidade", todo o conhecimento que possuímos é produzido e influenciado pelas relações sociais que vivenciamos desde nossa infância. Para os autores, mesmo as ideias e hábitos que são assumidos como "senso-comum" ou "óbvios" são, na verdade, resultado de nossa inserção e papéis em determinados grupos sociais.

O conceito de socialização é fundamental para compreender esse aspecto da vida em sociedade. É por meio da socialização em diferentes grupos sociais que aprendemos as regras de conduta que são observadas pelos membros do grupo e, portanto, as formas de agir e pensar que são fundamentais para o indivíduo conviver em sociedade. Assim, os diferentes processos de socialização podem ser vistos como o próprio aprendizado da vida em sociedade.

A primeira forma de socialização (ou socialização primária) está relacionada ao ambiente familiar e é fundamental para os processos de socialização subsequentes, que acontecem no ambiente escolar e na vida adulta. É durante a socialização primária que as pessoas aprendem as principais regras de conduta, normas, valores, posições éticas e relações pessoais e de afetividade que irão possivelmente manter durante o restante de suas vidas.

As regras apresentadas para a criança durante a socialização primária são determinadas pelos pais ou responsáveis e apresentam-se como uma realidade objetiva, não-negociável. Por exemplo, os horários corretos para as refeições e o uso correto dos talheres são determinados pelos adultos, sendo assumidos como regras não negociáveis para a criança, que aprende a se comportar de forma a respeitar essas regras válidas em seu convívio social (é por isso que nossos hábitos pessoais como jovens e adultos é ainda muito similar ao que aprendemos quando crianças).

A socialização primária, no entanto, não diz respeito apenas às atividades e convenções da vida cotidiana, mas também aos valores e formas de relação interpessoal que iremos cultivar no futuro: se uma criança for socializada em um ambiente no qual atitudes discriminatórias em relação às minorias são comuns, ela tenderá a reproduzir esse padrão, pois percebeu que em sua família esse é um comportamento aceitável e correto. (Maiko Rafael Spiess)

 

Para complementar a discussão, incentive a turma a pensar em outros exemplos de hábitos e comportamentos que são aprendidos no ambiente familiar e mantidos, em maior ou menor grau, na vida adulta. Estimule a discussão usando exemplos de hábitos cotidianos aparentemente banais como a organização da limpeza da casa ou o processo de elaboração de listas de compras nos supermercados, evoluindo gradativamente para questões mais complexas como a religião em que eles foram educados (os alunos seguem a religião praticada pela família ou puderam escolher livremente?) ou o posicionamento político que eles seguem (qual o grau de influência dos familiares mais próximos em questões sobre liberdades civis, direito de expressão etc?).

Lembre-se: não existem respostas certas ou erradas! É fundamental demonstrar que existem padrões de comportamento que são mais rígidos do que outros, e que muitos comportamentos são diretamente dependentes da socialização primária que acontece durante a infância, especialmente no ambiente familiar.

3ª etapa 

Inicie retomando os assuntos abordados anteriormente. Procure se certificar que os alunos compreenderam a ideia de que muitos de nossos valores e comportamentos são diretamente relacionados com nossa socialização primária. Em seguida, proponha a seguinte questão complementar:

Se nossos hábitos e formas de pensar são determinados durante a socialização primária, como podemos explicar mudanças de comportamento durante a juventude e vida adulta?

Nessa etapa, incentive a discussão por parte dos alunos. Para guiar a conversa, você pode pedir que eles escrevam ideias ou exemplos de grupos sociais ou situações onde aprendemos e nos envolvemos em formas de socialização diferentes daquelas do ambiente familiar. Se quiser, utilize a lousa para listar os exemplos citados. Os exemplos mais comuns são os círculos de amizade, a escola e os locais de trabalho, mas com certeza os alunos irão pensar em outros exemplos. Deixe que a criatividade deles conduza a conversa!


Em seguida, direcione a discussão de acordo com o texto abaixo:

 

Socialização secundária

socialização secundária é diferente da socialização primária, mas ambas são fenômenos complementares. A proibição e a vergonha em relação à nudez são estabelecidas durante a socialização primária, no âmbito familiar, mas as regras de vestimenta são em muitos casos determinadas pela socialização secundária. Por exemplo, as escolas podem possuir uniformes e locais de trabalho e sugerir o uso de "roupas sociais" como terno e gravata, e alguns eventos especiais podem exigir o uso de certas peças de vestuário (como o vestido branco das noivas).

Tratam-se de ações guiadas por dois conjuntos de regras, diferentes porém relacionados. Certos padrões podem se manter de forma invariável (a obrigatoriedade do uso de vestimenta em público), mas os detalhes mais específicos (como o tipo de vestimenta adequado para cada situação) variam de acordo com o grupo social com o qual iremos interagir.

O mesmo vale para os padrões relacionados com a alimentação: durante uma refeição com um grupo de amigos, iremos escolher o restaurante e o tipo de prato de acordo com as preferências do grupo e opções disponíveis, mas nossos alimentos preferidos (e aqueles que desconhecemos ou detestamos!), os hábitos de uso dos talheres, as regras de etiqueta são herdados da socialização primária.

Como indica o sociólogo norte-americano Howard Becker, adaptamos nosso comportamento de acordo com as situações ou grupos sociais nos quais nos inserimos. Por um lado, as regras aprendidas na socialização secundária nos fornecem os meios para poder discutir e negociar o curso de ação que iremos tomar em cada situação específica, como a sala de aula, a fila do cinema ou o comportamento adequado no transporte coletivo. Por outro, nosso posicionamento e comprometimento depende principalmente de nossos valores e "formas de ver o mundo", adquiridos durante a socialização primária. Ceder um assento para um idoso no ônibus pode ser uma regra explícita em certas situações, mas a adesão à regra ou a rapidez em que nos levantamos para ceder o lugar remetem aos valores intrínsecos, aprendidos durante a socialização primária.

Não é impossível que as pessoas reavaliem ou abandonem costumes adquiridos durante a socialização primária, mas essa tarefa é sempre bastante difícil. Valores e costumes construídos durante a socialização primária são muito mais internalizados e íntimos do que as normas aprendidas na socialização secundária. A socialização secundária possui ainda um grau maior de "anonimato". O mesmo conhecimento e regras sociais podem ser ensinados por um professor ou outro, ou por grupos sociais diferentes, uma vez que fazem parte de "universos sociais" mais amplos. Com isso, costumam demandar menos comprometimento pessoal. Sua importância, porém, não pode ser negada. (Maiko Rafael Spiess)

 

4ª etapa 
Organize a turma em grupos de quatro ou cinco alunos. Sugira que eles reavaliem o texto de Veja discutido anteriormente e suas anotações individuais. Em seguida, peça que elaborem um texto curto, descrevendo uma situação cotidiana em que os valores adquiridos na socialização primária e as regras contingenciais da socialização secundária são confrontados ou se complementam de forma perceptível. O texto deverá ser entregue no final da aula, para ajudar na avaliação da turma.
Avaliação 

Analise, por meio do texto apresentado e das conversas em sala, se os objetivos traçados no início da sequência didática foram alcançados. A saber: compreender o conceito de "socialização", analisar e discutir o papel do ambiente familiar para os processos de socialização e construção da identidade individual e explorar outras formas de socialização como, por exemplo, o ambiente escolar e o trabalho.

Autor Nova Escola
Créditos:
Maiko Rafael Spiess
Formação:
Sociólogo e pesquisador visitante do Departamento de História da Ciência da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos

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