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Gramática com textos: 9º ano - construções contrastivas

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Analisar o valor contrastivo dos conectivos mas e embora;
Analisar as diferenças de uso entre os conectivos mas e embora.

Conteúdo(s) 

- Discurso argumentativo.
Conectivos mas e embora.

 

Ano(s) 
Tempo estimado 
Cinco aulas
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Esta é a décima quarta de uma série de 16 sequências didáticas que fazem parte de um programa de estudo de gramática para 6º a 9º ano do Ensino Fundamental. Confira ao lado todas as aulas da série.

Inicie a aula fazendo referência a Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos principais nomes do Iluminismo francês. Retome os conhecimentos da classe sobre essa corrente filosófica do século 18. Explique que os iluministas defendiam a razão como luz natural da humanidade. Rousseau acreditava na bondade natural do homem e dizia que ele nascia bom, mas era corrompido pela sociedade. O filósofo afirmava que, diferente do animal, o homem era livre.

Proponha que os alunos leiam o trecho abaixo de um texto de Rousseau em que essa concepção é explicitada. Antes de entregar o texto à classe, suprima o conectivo mas.

 

A natureza comanda todo animal, e a besta obedece. O homem experimenta a mesma sensação, ---------------- ele se reconhece livre para aquiescer (acatar) ou para resistir; e é sobretudo na consciência dessa liberdade que se mostra a espiritualidade da alma ...

ROUSSEAU, J-J. In: FORTES, L. R. S. O Bom Selvagem. São Paulo: FDT, 1989, p.55.

 

Peça que os alunos se coloquem em duplas, leiam o texto e identifiquem a palavra ausente. Durante a realização da tarefa, observe as discussões e as dificuldades apresentadas pela turma.

Quanto terminarem, releia o trecho e levante oralmente as possibilidades inferidas pelos alunos. Proponha à classe alguns articuladores e discuta seus significados. Pergunte se a frase poderia ser completada com a palavra logo, incite os alunos a pensar sobre o papel desse articulador no contexto. Repita o exercício com portantoe e mas.

Chame a atenção dos estudantes para o significado do mas no trecho. Peça que expliquem como ele se insere no contexto. Os alunos vão perceber que Rousseau começa dizendo que homens e animais são governados pela natureza. Cria-se, então, a expectativa de que eles devam apresentar o mesmo comportamento. O filósofo, no entanto, quebra essa ideia ao mostrar que o animal acata as determinações naturais, enquanto o homem pode não acatá-las. Conclua com a classe que o mas assinala uma expectativa não cumprida.

2ª etapa 

Proponha que os alunos leiam o texto abaixo.

 

A leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Segundo a bela imagem de Michel de Certeau, o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura, o texto não tem de modo algum - ou ao menos totalmente - o sentido que lhe atribui o seu autor, seu editor ou seus comentadores. Toda a história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Mas esta liberdade leitora não é jamais absoluta. Ela é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura. Os gestos mudam segundo o tempo e os lugares, os objetos lidos e as razões de ler. Novas atitudes são inventadas, outras se extinguem. Do rolo antigo ao códex medieval, do livro impresso ao texto eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler. Elas colocam em jogo a relação entre o corpo e o livro, os possíveis usos da escrita e as categorias intelectuais que asseguram sua compreensão.

CHARTIER, R. A Aventura do Livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP/ Imprensa Oficial SP, 1999, p 77.

 

Analise o texto coletivamente e verifique se os alunos compreenderam-no. Em seguida, proponha que, em duplas, preparem um esquema colocando a argumentação presente no texto. Dê um tempo para que realizem a tarefa. Oriente a classe a retornar a leitura, grifar as informações principais, ver como se relacionam entre si e esquematizá-las.

Inicie a correção e leia os quatro primeiros períodos até o mas. Peça que os alunos comentem qual o eixo da argumentação até então. Eles devem perceber que ela está focada na liberdade do leitor, um caçador que percorre terras alheias à procura de significados.

Após essa análise, leia o restante do texto. Questione a classe sobre a mudança na rota de argumentação. Chame a atenção para o período "mas esta liberdade leitora não é jamais absoluta" e analise-o coletivamente. A classe vai notar que a mudança fica evidente pelo uso do mas e pelo teor do trecho. Comente que o esta retoma a ideia anterior - a liberdade do leitor - e o mas sinaliza a presença de um novo argumento que se opõe ao primeiro e estabelece uma mudança de direção.

Discuta também a colocação do articulador no interior do texto. Pergunte à classe as razões para o mas aparecer no meio do período. Mostre aos alunos que, para estabelecer uma relação de contraste, é preciso que haja uma ocorrência inicial que será contrariada. O mas, nesse caso, pressupõe um antecedente. Comente com a moçada que, muitas vezes, encontramos textos argumentativos em que o mas aparece no início do período. Explique que esse erro indica uma incompreensão do sentido do conectivo.

No final da aula, proponha aos alunos uma tarefa para casa. Cada dupla deve escolher um assunto polêmico em evidência no momento e procurar quatro notícias sobre ele (duas por aluno). Explique que os textos devem ser trazidos na última aula desta sequência didática.

3ª etapa 

O intuito dessa etapa é trabalhar outras relações contrastivas no interior de pequenos textos argumentativos. Inicie a aula relembrando a remissão feita a Rousseau, filósofo que defendia a bondade natural do homem. Escreva no quadro o seguinte trecho:

 

"O bom selvagem" é uma expressão muito em voga entre os pensadores iluministas. A tradição a aproxima de algumas teses de Rousseau, embora ele não a tenha usado em seus escritos.

FORTES, L. R. S. O Bom Selvagem. São Paulo: FDT, 1989 ,p.1

 

Analise o fragmento dado coletivamente. Discuta com a classe o uso do conectivo embora. Os alunos devem notar que, de modo similar ao mas , ele indica que uma ideia se opõe a outra.

Proponha aos alunos dois exercícios:

a) Substituição do termo embora por mas no texto acima;
b) Reescrita do segundo período, invertendo a ordem e começando com o termo embora.

Inicie a correção e analise as peculiaridades do uso dos conectivos embora e mas. No primeiro exercício, chame a atenção da classe para a mudança do modo verbal subjuntivo para o indicativo.

"O bom selvagem" é uma expressão muito em voga entre os pensadores iluministas. A tradição a aproxima de algumas teses de Rousseau, mas ele não a usou em seus escritos.

Peça, então, que a classe apresente a solução do segundo exercício. Os estudantes devem chegar ao seguinte texto.

"O bom selvagem" é uma expressão muito em voga entre os pensadores iluministas. Embora Rousseau não a tenha usado em seus escritos, a tradição a aproxima de algumas de suas teses.

Leve a turma a perceber as diferenças de entre mas embora. O mas pressupõe uma afirmação anterior à qual o conectivo faça remissão. O embora, por sua vez, pode ser usado para iniciar um período. Quando isso acontece, ele insinua e prepara o leitor para a quebra de expectativa.

Proponha que os alunos analisem os efeitos de sentidos em jogo nos períodos abaixo.

a) Pedro estudou para a prova, mas não tirou boas notas.
b) Embora Pedro tenha estudado para a prova, ele não tirou boas notas.

Conclua com a classe que, no primeiro exemplo, o trecho inicial Pedro estudou para a prova cria uma expectativa favorável, desfeita no trecho final: mas não tirou boas notas. No segundo exemplo, o uso do termo embora antecipa ao leitor a quebra de expectativa.

4ª etapa 

Apresente à classe a seguinte história contada pelo historiador francês Roger Chartier.

 

Na novela Mundo de Papel de Pirandello, um leitor, o professor Balicci, fica cego de tanto ler. Ele fica desesperado porque a voz interior dos livros, que passava por sua visão, se calou. Imagina então um primeiro subterfúgio, pedir a uma leitora para lhe ler em voz alta, mas o procedimento revela-se um desastre. A moça lê à sua maneira e Balicci não ouve mais a voz de seus livros. Ele ouve outra voz, que choca sua audição e sua memória. Ele pede então a sua leitora que fique quieta e leia em seu lugar. Ela deve ler, para ela mesma, em silêncio, a fim de dar nova vida a este mundo que, desabitado, corre o risco de se tornar inerte. Lendo em lugar de Balicci, a leitora evitará que seus livros morram, abandonados, ignorados. Mas o drama se precipita quando um dia, lendo uma descrição da catedral e do cemitério de Trondheim, na Noruega, a leitora exclama: "Eu estive lá e não é de modo algum como está no livro." O professor Balicci, então, tomado de terrível cólera, despede a leitora, gritando: "Pouco me importa que você tenha estado lá, do modo como está escrito, é assim que deve ser". O mundo de papel de Balicci, como o de Dom Quixote, tornara-se o próprio universo. Cego, o professor encontra o único conforto, ou sua única certeza, no fato de que, quando folheia seus livros, que se tornaram ilegíveis, seus textos retornam na sua memória e, com eles, o universo tal como ele é - ou deve ser.

CHARTIER, R. A Aventura do Livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP/ Imprensa Oficial SP, 1999, p 155.

 

Após a leitura, discuta com os alunos os possíveis significados da novela de Pirandello.

Apresente alguns questionamentos para nortear a discussão:
a) Qual a relação entre literatura e realidade? A literatura deve imitar a realidade?
b) Por que a leitura da moça não agradou ao professor? Qual o possível significado dessa passagem da novela?
c) A leitura é uma prática individual? É possível socializar o espanto que ela ocasiona no leitor?

Depois da discussão, proponha que os alunos elaborem um parágrafo comentando o texto. A produção deve conter as palavras mas ou embora, utilizadas como indicadores de contraste. Simule com os alunos algumas possibilidades de construção.

Embora o velho Balicci tentasse driblar a sua cegueira contratando uma leitora, ele não alcançou o seu objetivo, pois a voz da moça não era a voz de seus livros.

O velho Balicci tentou driblar sua cegueira, mas não conseguiu porque a leitura é uma experiência intransferível.

Realize a correção e peça que os alunos leiam suas produções para a classe. Observe, durante a leitura, se eles compreenderam os aspectos abordados.

Avaliação 

Como atividade avaliativa, peça que os alunos se reúnam em duplas e retomem a tarefa proposta na 2ª etapa. Oriente-os a trocar com o colega de dupla as notícias sobre o assunto escolhido. Com isso, cada um lerá as duas notícias que o amigo selecionou. Após a leitura, proponha que as duplas discutam o tema e elaborem um texto, posicionando-se a respeito dele. Explique que os estudantes devem usar os dois conectivos estudados - mas ou embora.

Ao final da aula, recolha as produções da classe, leia-as e aponte os ajustes necessários. Peça que a turma reescreva os textos. As produções finais podem compor um painel na sala de aula com os posicionamentos do grupo sobre as polêmicas do momento. A avaliação deve ter como foco a primeira versão do texto e o trabalho reescrito.

 

Quer saber mais?

Bibliografia

AZEREDO, J. C.. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2008.
CASTILHO, A . T. Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2010.
CHARTIER, R. A Aventura do Livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP/ Imprensa Oficial, 1999.
FORTES, L. R. S. O Bom Selvagem. São Paulo: FDT, 1989.
NEVES, M. H. N. Gramática de Usos do Português. São Paulo: Editora UNESP, 2000. 

 

 

Créditos:
Conceição Aparecida Bento
Formação:
Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora universitária.
Autor Nova Escola

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