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Em nome de Deus e dos homens

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Examinar as relações entre sagrado-terreno e universal-nacional no catolicismo

Conteúdo(s) 

Relações entre sagrado-terreno e universal-nacional no catolicismo

Ano(s) 
Material necessário 

Reportagem da Veja:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Uma característica das sociedades modernas é o seu conteúdo laico, quer dizer, o Estado e as instituições sociais e políticas devem estar separadas da Igreja. E, sem dúvida, hoje em dia a religião tem menos presença nas estruturas sociais de comando do que nas sociedades do passado. Mas essas instituições estão mesmo separadas? Ou o laicismo convive e se entrelaça com as tradições religiosas? A Constituição brasileira de 1988, por exemplo, afirma que vai assegurar uma série de direitos, liberdades etc., tudo sob a proteção de Deus. Daí a importância da reportagem "Os Santos da Nossa Casa", que fundamenta este plano de aula. O texto de VEJA remete a processos internos do catolicismo que podem ajudar a apreender o universo da religião e sua importância no conjunto das relações sociais.


Dimensões religiosas
 
Sagrado x terreno

O conjunto de crenças que sustenta uma religião, em especial o monoteísmo judaico-cristão, não precisa ser explicado e nem se submeter à lógica terrena das comprovações científicas. Deus é absoluto e escreve certo por linhas tortas. No entanto, uma religião só se enraíza e se propaga com muita organização. E essa ordem é terrena, sujeita à vontade dos homens, com seus defeitos, virtudes e interesses. Muito longe do absoluto que é Deus. Bem, a questão da canonização de um santo flutua entre esses dois universos: o sagrado e o terreno. O processo de canonização é muito rigoroso, mas o sagrado não está sujeito ao conceito terreno de verdade. Vejamos o caso de São Jorge, o mais conhecido dos santos guerreiros. A Igreja Católica, que o canonizou, também o retirou das fileiras dos santos, considerando apócrifos os documentos sobre a sua existência. Mas São Jorge continua a ser santo da Igreja Ortodoxa, padroeiro da Inglaterra e de Portugal, e nada poderá afastá-lo do coração dos devotos, sejam estes cristãos ou pertencentes a religiões não-cristãs: no Brasil, São Jorge se identifica com os orixás Ogum e Oxóssi.

Universal x nacional
A reportagem examina a tensão existente entre a dimensão universal do sagrado e a necessidade de um santo nacional. Ora, o absoluto transcende as nacionalidades, que são coisas dos homens. No entanto, existem santos associados a uma nação, como São Luís, que foi rei da França (leia a reportagem à pág. 146 de VEJA). Além disso, as pessoas vivem em determinadas nações e nelas desenvolvem a sua crença. Quando se considera que o Brasil estaria merecendo um santo, é porque, afinal, somos o maior país católico do mundo e essa combinação sagrado-nacional fortaleceria a fé católica no país. Estamos diante de outra situação paradoxal. O sagrado é superior à vida humana, mas acaba por se deixar moldar por ela, pelos interesses dos homens em fortalecer a religião. Isso conduz à idéia de que a canonização atende a estratégias da hierarquia eclesiástica.

Força divina x força humana
Deve-se discutir ainda o modo como se constrói e se exerce a fé religiosa. Há sempre, em tese, um fenômeno de busca da graça que não é mais possível na vida terrena, um problema que está além da força humana. Por exemplo, doenças que não saram, amores perdidos que não reaparecem, sofrimento que não finda. Mas, no Brasil, muitas vezes se invoca a intercessão dos santos e a graça divina para suprir uma cidadania que não se exerce. A maioria das doenças no Brasil não precisa ainda ser curada por Deus, e sim por um sistema de saúde público que funcione. Precisamos da vontade política de nossos governantes, que assim podiam colaborar com os céus e diminuir a sobrecarga desnecessária de atendimentos divinos. Desse modo também diminuiriam outros sofrimentos cotidianos da população brasileira, que têm como causa nossas próprias ações.

Até quando nossos candidatos a santos passarão sua existência espiritual levando algum alento aos vitimados pela indiferença das elites? Os santos franceses e italianos atuais não exercem sua caridade em seus países, porque nestes a força humana já deu conta dos principais problemas. Nossos governantes e nosso povo poderiam se inspirar nesses exemplos.

Lembre aos seus alunos que a religião católica procura refletir um poder divino absoluto e transcendental que é o eixo de sua organização, mas que não consegue fazê-lo sem se deixar moldar pelas relações humanas terrenas. A partir daí, peça que eles analisem o fenômeno recente do apelo popular do padre Marcelo Rossi, verificando o quanto de sua pregação reflete essa duplicidade. Eles devem abordar, por exemplo: a) a oposição religião e carnaval; b) a pregação discreta como se fosse expressão direta do poder divino e o marketing como meio de propagação da religião; c) o uso de rezas para resolver questões do desemprego etc.

2ª etapa 

Tema para debate: a canonização de um santo brasileiro, entre os 35 candidatos, viria fortalecer a fé católica no Brasil? Os alunos devem fundamentar sua opinião, discutindo se consideram que as ações da Igreja Católica trazem a marca de políticas estratégicas, bem ao feitio das práticas humanas, ou se, ao contrário, estão balizadas por uma emanação do sagrado.

Com as armas de Jorge

São Jorge e o Dragão, de Jacopo Tintoretto
São Jorge e o Dragão, de Jacopo Tintoretto

Quando o veneziano Tintoretto pintou o episódio mais conhecido da lenda de São Jorge, o instante em que ele subjuga o dragão que devorava virgens, registrou os pontos de contato entre o Céu e a terra dos homens.

O anjo
A presença de um anjo, mensageiro de Deus, multiplica as forças de São Jorge e lhe dá a vitória na luta contra o dragão, fera mítica que simboliza o pecado e o mal. Nesta dimensão
do sagrado, pouco importa que os dragões jamais tenham existido. O que conta é o milagre, testemunho inconteste da força divina

O soldado
Armado, São Jorge é mostrado como um guerreiro da cavalaria. Além de ter sido fiel aos registros históricos, que garantiam ter o santo servido como soldado romano na Palestina, Tintoretto nos dá uma pista sobre outra característica temporal da Igreja: a disposição de pegar em armas sempre que seus interesses geopolíticos assim o exigiram. É o caso das Cruzadas, sangrentas expedições militares contra os muçulmanos do Oriente entre os séculos XI e XIII

Créditos:
Jaime Oliva
Formação:
Geógrafo, professor da Unifico de Osasco, SP
Autor Nova Escola

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