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Ditadura, contestação e manifestações culturais

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Entender as mudanças sociais e políticas da década de 1960 e articular aquele momento histórico com a realidade de hoje. Como avaliação, propõe-se a produção coletiva de um fanzine.

Conteúdo(s) 
  • Regime militar no Brasil
  • Cultura de resistência
  • Década de 1960 no mundo
  • Manifestações
Ano(s) 
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Com base na reportagem "O Ditador fala", explique a seus alunos o contexto de Estado de Excessão e repressão da época da Ditadura Militar no Brasil. Destaque os trechos abaixo, para desenvolver a reflexão:

  • "Uma década após deixar o poder, um amargurado Emílio Garrastazu Médici disse ao repórter A. C. Scartezini, que insistentemente tentava entrevistá-lo: ‘Eu sou o arbítrio, sou a ditadura. A ditadura não fala’. Médici morreu sem dar um depoimento sobre os cinco anos em que governou o Brasil, entre 1969 e 1974" (p.95)
  • "Pelo relato de Buzaid, não havia ‘preso político nem tortura no Brasil’. Ele considerava os guerrilheiros e militantes encarcerados como bandidos comuns. Escreveu que os presos eram muito bem tratados na cadeia. (...) Jean Marc foi torturado. Liszt Vieira, militante do movimento estudantil, preso, igualmente torturado (...) é dado também como exemplo do tratamento humanitário dispensado aos presos nas cadeias do Brasil." (p.95)
  • "Dois documentos ‘secretos’ de 18 de dezembro de 1968, cinco dias após a decretação do AI-5, dão ‘diretrizes’ para a aplicação do ato que fechou de vez o regime militar. Um, rubricado por Costa e Silva, detalha desde a decretação de prisão (‘pessoas de projeção no meio político e social somente com a instauração do necessário IPM’) até a censura (‘O objetivo é, simplesmente, o de proibir a divulgação de matéria subversiva, de incitamento à desordem ou que vise desmoralizar o governo ou as Forças Armadas’). O outro (‘Encargos imediatos do SNI’) foi escrito pelo próprio Médici, que chefiava o serviço. Anota Médici: ‘Acompanhar tentativas de reorganização política e reabertura do Congresso’. Ao SNI, caberia também produzir uma ‘lista inquestionável de cassação dos mandatos’ e um ‘dossiê para o processo de cassação’." (p.97)
  • "Mas o mais notável, do ponto de vista da pesquisa histórica, talvez sejam as omissões. Entre as lacunas que gritam, está a guerrilha do Araguaia, o mais emblemático embate entre o governo e grupos armados durante o regime militar. Não há um único informe sobre a frente guerrilheira ou sobre a bem-sucedida operação das Forças Armadas. (...) Certa vez, para justificar a censura à imprensa, Médici disse: ‘Aquela guerrilha acabou antes que a população tomasse conhecimento de sua existência. Era preciso esconder as operações para que elas tivessem sucesso’." (p.98)
  • "Guardados com maior carinho, como não podia deixar de ser, estão os testemunhos da imensa popularidade que Médici desfrutava. Feita em agosto de 1972 a pedido da Folha de S. Paulo e apenas em São Paulo, uma pesquisa do Ibope revela que 84% dos paulistas avaliavam o governo como ‘muito bom’. Vivia-se, então, o auge da repressão, mas a censura e a euforia com o ‘milagre econômico’, com taxas anuais de crescimento que bateram em inacrediáveis 14% em 1973 (...) davam a impressão de que o Brasil era, como dizia a propaganda oficial, ‘uma ilha de tranquilidade em um mundo imerso na recessão’." (p.100)
2ª etapa 

Nesse momento, converse com seus alunos sobre os movimentos de contestação que nasceram e se fortaleceram no período militar no Brasil e também no contexto mundial, principalmente entre os jovens, ávidos por experiências e cheios de esperanças por futuros melhores.

 

1. O Brasil conheceu passeatas estudantis contra a ditadura nos anos 60 e nos anos 90, com os caras-pintadas, decisivas para o afastamento do presidente Collor. Discuta, com os alunos, as semelhanças e as diferenças entre os dois movimentos. Por que os estudantes fracassaram em 1968 e triunfaram em 1992? Que setores sociais se mobilizaram junto aos estudantes? Qual o papel da imprensa nos dois processos? Alguns dos seus alunos conhecem algum cara-pintada? Peça a eles para registrar os depoimentos desses militantes.

 

2. Em 1968, os estudantes que vaiaram É Proibido Proibir aplaudiram apaixonadamente Para Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. Faça, com os alunos, um levantamento das músicas de protesto do período. Essas canções eram musicalmente ricas, ou o que importava era o "recado" que transmitiam? Discuta essas questões.

 

3. No Brasil, a fase mais repressiva do regime militar ocorreu após 1968. Para que seus alunos percebam o que representou a luta política nesse período, leve para a sala de aula artigos de revistas ou periódicos atuais que discutam a questão da abertura dos arquivos da polícia para a identificação dos presos e mortos políticos.

 

4. A aura revolucionária presente em 1968 revestiu outros momentos históricos, entre eles a onda de revoluções liberais na Europa de 1848, conhecida como "Primavera dos Povos", a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e as mobilizações de estudantes chineses nos anos 80. Peça aos alunos para pesquisar e discutir esses episódios. Assista com eles aos filmes Terra e Liberdade - sobre a luta antifranquista na Espanha - e Tempos de Viver, que mostra a trajetória da China contra o autoritarismo "socialista".

 

É importante destacar que as mudanças de comportamento entre os jovens na década de 60 tinham como ideias-chave "comunidade" e "tribo", servindo de base a um novo estilo de vida. Uma parte fundamental dessas mudanças se manifestou na esfera do prazer. A difusão da pílula anticoncepcional permitiu o sexo sem o risco de uma gravidez indesejada. O tabu da virgindade foi questionado, na teoria e na prática; as mulheres ganharam maior liberdade pessoal e profissional. Ter múltiplos parceiros no âmbito da tribo - da escola às comunidades hippies - tornou-se prática não condenada. O slogan "Paz e Amor" sintetizava a oposição à guerra e o direito à sexualidade livre.

 

Esse movimento, início de uma profunda revolução de costumes, deu aos jovens a oportunidade para negociar regras, transgredir leis e modificá-las, ultrapassar limites e, em especial, experimentar novas formas de relacionamento. Mas o que acontece hoje? Até que ponto a Aids vem tolhendo a sexualidade dos jovens? São reflexões que o professor pode estimular entre os alunos.

Peça que seus alunos leiam a reportagem de VEJA, "1968", e marquem os trechos sobre comportamento, do tipo "mudou-se para sempre a relação dos pais e dos filhos". Destaque também a frase de Daniel Cohn-Bendit: "...queríamos mudar a linguagem e o estilo de vida, queríamos uma liberação dos costumes, o entusiasmo da solidariedade, a alegria de superar o egoísmo".

 

Em seguida, assista com seus alunos a filmes como Hair, Woodstock, Apocalypse Now e O Que É Isso, Companheiro?, que ilustram o comportamento dos jovens dos anos 1960 - dos hippies à esquerda brasileira. Depois, faça o mesmo com filmes representativos da atual década: Meu Nome Não é Johnny, Alpha Dog, Querida Wendy e Tiros em Columbine.

 

Divida a classe em grupos e proponha um tema diferente para cada um deles. Alguns exemplos de temas que podem encaminhar as discussões:

 

  • principais anseios e características dos personagens
  • diferenças de relacionamento entre homens e mulheres;
  • quais drogas são referidas nos filmes, em quais situações são usadas e o que provocam;
  • que tipos de comportamento violento os filmes evidenciam;
  • quais comportamentos podem significar solidariedade? E egoísmo?

 

Após as discussões, cada grupo deverá apresentar suas conclusões ao conjunto da classe. Para finalizar a tarefa, peça que os alunos avaliem as palavras de Cohn-Bendit e levantem as principais mudanças comportamentais ocorridas nos últimos 40 anos.

 

Uma década explosiva

1959 - Fidel Castro e seus companheiros tomam o poder em Cuba.
1961 - Fracassa o desembarque dos exilados anticastristas na baía dos Porcos (Cuba). Jânio Quadros renuncia à presidência do Brasil. A "campanha da legalidade" assegura a posse do vice-presidente João Goulart, embora com poderes presidenciais diminuídos devido à adoção do regime parlamentarista.
1963 - Os Estados Unidos se envolvem na guerra do Vietnã. O pastor Martin Luther King lidera 250 mil pessoas numa marcha sobre Washington, exigindo igualdade racial e direitos civis para os negros. São assassinados os presidentes John Kennedy, dos Estados Unidos, e Ngo Dinh Diem, do Vietnã do Sul. Um plebiscito restabelece o presidencialismo no Brasil e estimula o confronto em torno da questão da terra e de outras "reformas de base" apoiadas por organizações como as Ligas Camponesas.
1964 - O presidente João Goulart é derrubado por forças militares. É aprovada a Lei dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Luther King recebe o Prêmio Nobel da Paz. Os americanos começam a bombardear o Vietnã do Norte.
1967 - Che Guevara é preso e executado na Bolívia, por soldados do Exército. Na Tchecoslováquia, o líder comunista Alexander Dubcek impulsiona reformas democratizantes do regime: a chamada "Primavera de Praga".
1968 - Vietnã - em fevereiro, a ofensiva do Tet (o Ano-Novo) realizada por guerrilheiros e tropas norte-vietnamitas, afasta qualquer perspectiva de vitória puramente militar norte-americana na Guerra do Vietnã, mostrando que o conflito só poderá ter uma solução política.
Estados Unidos - em junho, é assassinado Robert Kennedy, irmão do presidente John Kennedy e candidato à presidência; em outubro, Martin Luther King é morto a tiros.
Tchecoslováquia - tropas soviéticas e de outros membros do Pacto de Varsóvia invadem o país em agosto, esmagando a "Primavera de Praga".
França - manifestações estudantis na faculdade de Nanterre em 22 de março desdobram-se, em maio, em confrontos com a polícia e em greves operárias. No dia 9, Paris cobre-se de barricadas e os paralelepípedos arrancados das ruas tornam-se projéteis para deter a investida policial. A essa altura, operários participam das passeatas ao lado dos estudantes. No dia 13 é decretada a greve geral; no dia 16, os operários ocupam a Renault; no dia 21, há 10 milhões de franceses em greve. No dia 25, o governo negocia com as centrais sindicais, atendendo a algumas reivindicações econômicas e minando desse modo a aproximação entre operários e estudantes. No dia 29, o presidente De Gaulle viaja secretamente para a Alemanha e assegura o apoio das tropas francesas ali sediadas. De volta no dia 30, dissolve a Assembléia. Uma passeata de um milhão de franceses em seu apoio mostra que o "partido da ordem" está pronto para a contra-ofensiva.

 

Brasil

Março - no dia 28, a morte do secundarista Édson Luís de Lima Souto, abatido pela polícia no Rio de Janeiro, causa indignação; 50 mil pessoas protestam no seu enterro.
Abril - no dia 16 têm início os 9 dias de greve dos metalúrgicos de Contagem (MG).
Junho - no dia 26 realiza-se no Rio de Janeiro a Passeata dos 100 Mil; representantes do movimento se reúnem com o presidente Costa e Silva.
Julho - nos dias 16, 17 e 18, operários em greve paralisam seis das onze empresas metalúrgicas de Osasco (SP). Na capital paulista, militantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) agridem os artistas do espetáculo Roda Viva, no Teatro Ruth Escobar.
Outubro - no dia 2, alunos da "Maria Antônia", sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e pólo revolucionário do movimento estudantil, enfrentam os do Mackenzie, reduto conservador no qual atuavam núcleos anticomunistas. No confronto é morto a tiros o secundarista José Guimarães, que apoiava a "Maria Antônia". No dia 12, em Ibiúna (SP), são presos os delegados do Congresso da UNE, clandestino.
Dezembro - a decretação do AI-5 inaugura uma nova fase, ainda mais repressora, do regime militar. Setores radicais de oposição à ditadura voltam-se para as ações armadas.

Avaliação 

Peça para seus alunos dividirem-se em grupos. Em seguida, solicite que identifiquem as formas de contestação que aconteceram na onda de manifestações de junho de 2013 no Brasil. Os jovens participaram? Houve manifestações artísticas? De que forma elas se relacionam com os movimentos da década de 1960 e 1970?

A partir das discussões, peça à turma para produzir um fanzine, que mostra as manifestações culturais de contestação de junho de 2013 e, também, dos movimentos de 1960. Utilize o plano de aula "Fanzine e gênero jornalístico" para orientar a produção do material.

Créditos:
Patrícia Braick
Formação:
Professora de História do Colégio Loyola, de Belo Horizonte
Créditos:
Rosely Sayão
Formação:
Psicóloga e Consultora Educacional
Autor Nova Escola

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