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Breve oficina de composição e fotografia

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

- Conhecer os princípios básicos de composição visual e aplicá-los à fotografia.
- Reconhecer a importância dos fundamentos da linguagem visual para a realização de obras visuais.
- Reconhecer e valorizar a importância da fotografia como linguagem documental e artística.

Conteúdo(s) 
- Princípios básicos de composição aplicados à fotografia.
- Regra dos terços.
- Fotografia.
Ano(s) 
Tempo estimado 
Quatro aulas
Material necessário 

- Cópias da reportagem “O mestre e seus modelos” (BRAVO!, Ed. 171, novembro de 2011).
- Imagens de algumas obras de arte de Edgar Degas: http://abr.io/foto-degas
- Projetor para mostrar as imagens das obras aos alunos.
- Espaço amplo (pode ser a sala de aula, com as carteiras encostadas na parede) para que os alunos fotografem.

Revista BRAVO! - Ed. 171 Plano de aula relacionado à edição 171 de BRAVO!

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Aspectos introdutórios sobre a fotografia
Comece a aula explicando aos alunos que, apesar de todos eles saberem o que é uma fotografia e já terem visto várias durante a vida, a intenção das próximas aulas é fazer com que eles conheçam alguns princípios básicos de composição visual aplicados à fotografia e suas origens; reconheçam a importância dos fundamentos de linguagem visual e a importância da fotografia como linguagem documental e artística. Para isso, você contará um pouco da história da fotografia e suas origens.

Conte à turma que a história da fotografia remonta a tempos bastante distantes. O próprio Leonardo da Vinci e seu contemporâneo, o arquiteto Giacomo della Porta, embora ainda distantes da possibilidade da fixar a imagem sobre uma superfície, como uma placa metálica, uma chapa de vidro, ou o papel fotográfico (o que só ocorreria a partir do século 19), já desenvolviam no século 16, experimentos que séculos mais tarde dariam origem às primeiras câmeras fotográficas.

Diga aos alunos que até o século 19, a pintura em tela tinha a função de registrar as figuras dos governantes, dos nobres e das classes mais altas da sociedade, as cenas religiosas, de paisagens, enfim, de elementos que faziam parte vida das pessoas. Chame a atenção para o fato de que, desde o seu surgimento, a fotografia promoveu um tipo de fascínio entre as pessoas, por apresentar a possibilidade de registro de um momento, um instante único que não voltará mais.

Explique aos estudantes que, ao longo de seus quase dois séculos de existência, a fotografia passou por muitos avanços tecnológicos, deixando de habitar exclusivamente os estúdios dos fotógrafos, alcançando as prateleiras de supermercados e vitrines de shopping centers.

Comente que o advento das câmeras digitais, que começaram a se popularizar nos anos 2000, favoreceu ainda mais o acesso à prática do registro das imagens. De lá pra cá, o avanço da tecnologia e o desenvolvimento de novas câmeras, cada vez mais compactas, permitiu a introdução dessas máquinas em aparelhos celulares, computadores e os mais diversos tipos de dispositivos. Um celular, hoje, pode dispor de equipamentos para tomar imagens fotográficas, tratá-las (fazendo retoques, alterando cores, por exemplo) e partilhá-las.

Esclareça aos estudantes que a fotografia tem diferentes funções e transita por diversos caminhos, que vão da simples documentação de fatos, até a fotografia artística. Muitos fotógrafos se especializam em determinados segmentos como a fotografia jornalística, a de paisagens, de objetos, de pessoas ou de moda. Outros se dedicam a experimentos direcionados a fins artísticos. Comente que o século 20 conheceu grandes fotógrafos, como Man Ray, Henry Cartier-Bresson, Pierre Verger e o próprio Cecil Beaton, cuja obra é comentada na reportagem da revista BRAVO!.

Distribua cópias da reportagem aos alunos, solicite que leiam o texto em silêncio e observem as imagens por alguns instantes. Em seguida, comente que Beaton desenvolveu trabalhos em diversas áreas: atou no mercado da moda, foi um dos fotógrafos da família real britânica e documentou os bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, atuou ainda como autor de figurinos que mereceram o Oscar como foi o caso do filme Gigi, de 1958, dirigido por Vincent Minelli. No Brasil, podemos destacar entre os fotógrafos contemporâneos nomes como Sebastião Salgado, Miguel Rio Branco, Rosângela Rennó, Arthur Omar, e muitos outros.

Promova uma discussão com os alunos a partir da suposta simplicidade do ato de fotografar, que pode parecer uma ação muito simples, e talvez o seja, se considerarmos apenas o “click” do disparador. Será que isso é realmente fotografar? Será que para se obter uma foto interessante basta ter foco, ou seja, basta que a imagem seja nítida?

Ouça os comentários dos alunos e, durante o debate, comente que por trás de toda boa fotografia há um olhar muito atento e cuidadoso: o fotógrafo pensa a imagem, define o que quer registrar, ou seja, ele tem um objetivo, uma intencionalidade. A câmera é uma ferramenta utilizada para registrar esse seu pensamento a respeito do mundo que o rodeia.

Assim como ocorre em todas as linguagens que lidam com a visualidade, a fotografia também se beneficia do conhecimento dos elementos básicos da linguagem visual: tanto dos elementos simples como as cores, as formas, as texturas, como da articulação desses elementos no campo plástico, que chamamos de composição. Comente com a turma que a composição diz respeito ao modo como organizamos as coisas. Compomos o espaço em que vivemos estudando a distribuição dos móveis e objetos dentro dos cômodos de nossas casas, por exemplo.

Depois, explique aos alunos que a partir do século 19, quando se tornou possível a fixação de uma imagem captada por um equipamento óptico sobre uma superfície, desenvolveu-se o sistema da fotografia. Desde então, muitas das regras compositivas que eram utilizadas para a pintura passaram a ser reinterpretadas para dar conta deste novo processo científico-tecnológico. Os fotógrafos se valeram dos seculares conhecimentos de composição desenvolvidos pelos pintores e passaram a aplicá-los na realização das fotos. Também alguns pintores, como foi o caso do francês Edgar Degas, passaram a aproveitar alguns recursos da fotografia para realizar suas obras de pintura (neste momento você poderá mostrar algumas das pinturas de Degas – sobretudo nas séries em que mostra os balés e as aulas de dança - nas quais ele realiza “cortes” inusitados dos personagens retratados, como se estivesse utilizando uma câmera fotográfica).

Com relação à exploração do espaço, há várias regras tradicionais ligadas à pintura que podem ser transpostas para a fotografia, como o uso do retângulo áureo, uma relação matemática estudada desde a Grécia Antiga e que está ligada a uma grande harmonia nas formas. Há uma regra simples conhecida como “regra dos terços”, que é também bastante aplicada não apenas à fotografia, mas também à criação de peças de comunicação visual como cartazes, propagandas etc. Esta regra é bastante simples. Para exemplificá-la vocês poderão utilizar a imagem de um cartaz de cinema (prefira filmes que façam parte do repertório dos alunos), ou ainda algumas boas fotos de fotógrafos famosos, como a imagem “Praça na Estação de Trem Saint-Lazare”, de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), abaixo. Essa imagem poderá ser projetada para que vocês estudem a aplicação da regra.

Regra dos terços na fotografia Praça na Estação de Trem Saint-Lazare, de Henri Cartier-Bresson


Peça aos alunos que imaginem que o nosso campo visual (o cartaz, ou a foto) está dividido por linhas, como se fosse um “jogo da velha”, ou seja, por um par de linhas que cortam o campo horizontalmente dividindo-o em três faixas verticais. Pergunte aos estudantes o que eles conseguem observar quanto à distribuição dos elementos compositivos na imagem.

Comente com os estudantes que artistas gráficos e os fotógrafos costumam explorar o alinhamento, ou seja, a relação entre o tema, as horizontais, verticais e diagonais desse campo plástico. Muito provavelmente eles perceberão ainda que os elementos mais importantes estão dispostos próximos às interseções das linhas, o que faz com que nossa atenção se dirija justamente para esses pontos. Essa “grade imaginária” formada pelo traçado dos terços pode também ser muito útil ao pensarmos em linhas e formas dentro da composição. Se quisermos dar à imagem uma sensação de maior dinamismo, é interessante pensar na possibilidade de fazer com que determinadas linhas do tema a ser registrado cruzem com várias linhas da grade, como se fosse uma serpente que se desloca pelo campo plástico. Exagerar na ênfase para a horizontal ou para a vertical pode, de repente, tornar tudo muito monótono.

Há também outros princípios compositivos como, por exemplo, o da simplicidade, que em muito podem contribuir para uma boa foto. Explique aos alunos que a percepção trabalha principalmente a partir de nivelamentos e aguçamentos, ou seja, unimos coisas parecidas (podem ser semelhantes pela cor, pela posição, pela forma, pela textura) e destacamos coisas diferentes. Se observarmos as pessoas ao nosso redor, por exemplo, alguém que esteja com uma roupa de cor muito diferente salta automaticamente aos nossos olhos, ou seja, se destacará em meio às demais. Por isso, em qualquer composição é fundamental saber o que se quer mostrar, pois desse modo, enfatizaremos esse elemento para que ele seja percebido com mais facilidade.

Comente com a turma que, na fotografia, fundos muito complexos podem distrair a atenção do observador em relação ao tema principal. Uma das possibilidades de ressaltar o tema é aplicar um zoom sobre esse elemento, evitando outros elementos que possam desviar o foco de observação. Nesse sentido a velha regrinha do “menos é mais” poderá ajudar a obter uma imagem com melhor qualidade, utilizando um número menor de elementos.

Retome os conhecimentos que os alunos têm sobre a perspectiva em desenho e a definição da posição do objeto a ser retratado: se o observador está acima do objeto, abaixo dele ou no mesmo nível. Cada uma dessas posições em relação ao objeto conduzirá a uma diferente interpretação do mesmo. Pergunte à turma se esses princípios também podem ser utilizados na fotografia. Provavelmente eles responderão que sim. Mas de que forma?

Chame a atenção para o fato de que a maior parte das pessoas, ao registrar uma imagem, posiciona-se no mesmo nível do objeto a ser retratado. Mas, e se mudarmos essa relação? Ao nos posicionarmos abaixo do objeto a ser registrado, a sensação será a de que as coisas são maiores e até mais importantes do que o observador. No entanto, se a posição for inversa, ou seja, observarmos o tema do alto (basta subir em uma escada, por exemplo), o efeito obtido poderá ser o chamado “olho de pássaro” ou a visão do “Superman”. Nesse caso, o observador parecerá maior ou mais importante do que o tema.

Esse é um bom momento para praticar um pouco dos conhecimentos estudados. Peça aos alunos para que levem para a próxima aula câmeras fotográficas (podem ser câmeras convencionais, digitais ou até mesmo as dos celulares) para que vocês possam colocar as “mãos na massa”.

2ª etapa 

Fotografia na prática
Utilize esta aula para que os alunos coloquem em prática os conhecimentos básicos abordados na aula anterior: a simplicidade, a regra dos terços, a exploração das linhas e a mudança do ponto de vista (ou ponto de vantagem). Para auxiliá-los, mostre alguns exemplos de imagens que apresentem diferentes posicionamentos do fotógrafo em relação ao tema e questione a turma a respeito das soluções encontradas e dos resultados obtidos.

Outra possibilidade é levar uma câmera digital para a sala e produzir algumas fotos de objetos, alterando a posição do ponto de vista, exemplificando assim os conceitos estudados.

Em seguida, proponha que cada um entre os alunos da turma escolha um tema (pode ser um objeto, um lugar, uma cena). O exercício será o seguinte: cada um deverá produzir três fotos, em três diferentes pontos de vista, explorando a regra dos terços e o princípio da simplicidade para obter uma ênfase sobre o tema.

Lembre os estudantes de que para escolher uma fotografia única, os fotógrafos profissionais realizam muitas fotos com um mesmo tema e que, antes de tudo, para fotografar é necessário observar muito o seu objeto. E mais: é preciso olhar pela câmera, pois as lentes da câmera “enxergam” o mundo de um modo diferente dos nossos olhos.

Reserve um tempo para que os alunos façam as fotos e oriente-os sobre o uso dos equipamentos, caso eles tenham alguma dificuldade. Ao final da aula, peça para que eles tragam suas três imagens escolhidas impressas para o próximo encontro. O objetivo será analisar os resultados obtidos.

3ª etapa 

Mais alguns conceitos: equilíbrio e enquadramento
Agora que todos já passaram pela experiência de fotografar e selecionar as imagens, é hora de colocá-las em discussão. Organize uma pequena exposição dos resultados obtidos. Isso poderá ser feito fixando as imagens na parede ou distribuindo-as no chão, sobre um fundo de preferência liso e de cor neutra (branco, preto, cinza, ou até uma tira de papel pardo).

Ao retomar os conceitos trabalhados nos encontros anteriores vocês poderão analisar as fotos e utilizar os próprios resultados obtidos pelos alunos para introduzir mais duas “regrinhas” ao repertório que está sendo construído com os alunos sobre fotografia: o equilíbrio e o enquadramento.

O equilíbrio em uma imagem é algo bastante importante. Lembre aos seus alunos de que, para obtermos uma imagem equilibrada, podemos ou não utilizar a simetria. Ou seja: tomando como base o centro do campo visual, podemos ou não ter elementos iguais dos dois lados. Explique para eles que em uma imagem o equilíbrio funciona como em uma balança – é possível ter coisas pequenas de um dos lados que compensarão coisas grandes que estejam do outro lado, desde que as pequenas sejam “pesadas” e as grandes “leves”.

Portanto o equilíbrio visual poderá ser simétrico (os dois lados iguais) ou assimétrico (os dois lados diferentes). Em geral, imagens com composições assimétricas tendem a ser visualmente mais dinâmicas, ou seja, sugerem ação ou movimento. Observem as imagens da turma e procurem localizar entre elas algumas que possam exemplificar essa questão do equilíbrio por simetria e por assimetria.

Depois de encontrar exemplos de assimetria e simetria nos trabalhos dos alunos, é hora de falar sobre enquadramento. Explique aos alunos que enquadrar uma imagem é decidir de que modo você vai posicionar o seu tema em relação ao visor da câmera e, consequentemente, o que ela registrará como fotografia. Quando enquadramos um tema, normalmente escolhemos “barreiras” que o colocarão em destaque, como se fosse uma moldura. Este recurso pode dar uma sensação de profundidade à imagem e torná-la mais instigante. Os fotógrafos utilizam os mais diversos recursos para “enquadrar” os seus temas – vegetação, elementos arquitetônicos, janelas, portas etc.

Observem novamente as imagens da turma e tentem verificar se esses recursos foram aplicados e de que modo. Nesse momento, vocês poderão ainda recorrer aos retratos realizados por Sir Cecil Beaton apresentados na reportagem de BRAVO!, “O mestre e seus modelos”. Observem as soluções adotadas pelo fotógrafo em cada uma das imagens e, a partir dos comentários apresentados por Lino Villaventura, explique também o modo como ele valorizou seus modelos por meio de suas fotografias. Beaton ia além da simples imagem da pessoa, procurava por meio das fotos mostrar um pouco da personalidade de quem era retratado. Para terminar a aula, encomende aos alunos uma atividade final: a realização retratos fora do ambiente escolar.

Há um velho ditado que diz “dize-me com quem andas e te direi quem és”. Esse poderá ser o título do projeto: cada aluno deverá escolher aqueles que lhe são mais próximos (familiares, amigos, animais de estimação) e fazer uma série de retratos nos quais apliquem os conceitos trabalhados e as lições de Cecil Beaton (captar além da imagem, a “essência” do modelo).

A partir desse exercício cada aluno deverá montar um painel fotográfico. As imagens deverão ser impressas em formato de no mínimo 10x15xcm (uma possibilidade é realizar ampliações em maiores formatos - em 18x24cm. Os trabalhos poderão ficar mais interessantes, se as imagens tiverem boa resolução).

4ª etapa 

Apresentação dos trabalhos finais
Esta será a aula da apresentação dos trabalhos e aqui vocês poderão mais uma vez retomar as discussões em torno das fotografias tomadas, buscando aquelas que melhor solucionaram questões como o enquadramento, a luz, as texturas e as cores. Vocês poderão, ainda, elaborar um projeto de exposição e apresentar à escola os trabalhos desenvolvidos nas aulas.

Vá além:
1) Os trabalhos finais poderão ser apresentados sob a forma de scrapbooks (os álbuns que associam fotos, textos e outros materiais relacionados ao tema abordado) construídos pelos alunos.
2) Vocês também poderão realizar esse exercício em mídia digital, ampliável, gerando um mapa de relacionamentos como os que aparecem nas redes sociais mais comuns da internet, como o Orkut ou o Facebook, por exemplo.

Avaliação 

Observe se os alunos compreenderam as principais ideias trabalhadas nas aulas: os princípios básicos de composição visual aplicados à fotografia; a importância dos fundamentos da linguagem visual para a produção de boas fotos; bem como as diferentes funções da linguagem fotográfica. Durante os trabalhos práticos, verifique se os alunos sabem aplicar a regra dos terços, se entenderam os conceitos de assimetria e simetria e de enquadramento, se fazem bom uso da luz disponível nos locais fotografados, como eles trabalham a noção de profundidade e como interpretam os trabalhos dos colegas.

Autor Nova Escola
Créditos:
Maria José Spiteri Tavolar Passos
Formação:
Doutoranda e Mestre em Artes pela UNESP - SP, professora de Estética e História da Arte e Linguagem Visual na Universidade Cruzeiro do Sul e Escultura na Universidade São Judas Tadeu.

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